Falta dinheiro para nosso cinema explodir

Há 20 anos, o realizador moçambicano João Luís Sol de Carvalho sentou-se no computador e escreveu o guião para o filme “O Dia que Explodiu Mabata Bata”, baseado no conto homónimo do escritor Mia Couto. Mas a película só chegaria ao público em 2017.

De lá para cá o filme trouxe muita alegria para um homem que vive mergulhado no cinema, arte que parece uma extensão do seu corpo. Depois de ter sido jornalista, é através da sétima arte que decidiu continuar a contar histórias e a levar o nome de Moçambique para outros patamares. E fá-lo com dedicação. Prova disso é o facto de há menos de um mês “Mabata Bata” ter sido uma vez mais motivo de orgulho para o realizador ao arrecadar três distinções no Garden Route Festival Film International (África do Sul), de melhor filme, melhor director e melhor actor para Emílio Bila, jovem que interpretou Azarias, o protagonista do filme.

Eis o motivo para a conversa com Sol de Carvalho, que sente que o seu filme ainda tem uma estrada por percorrer, depois de ter vencido, noutros tempos, prémios como António Loja Neves, da Federação Portuguesa de Cineclubes; Melhor Montagem e Melhor Imagem, no FESPACO, festival africano realizado em Burkina Faso; melhor filme de ficção em Bristol (Reino Unido); melhor longa-metragem de 2019, no Langston Hughes African American Film Festival, entre outros, alcançando 74 participações em festivais e mais de 20 galardões.

A conversa flui no terraço do Cine Teatro Scala, sob temperatura amena que tranquiliza a capital do país, no dia que completa 133 anos. O homem que, apesar de inúmeras distinções, continua com sorriso fácil e uma mente veloz, contrastando com a sua idade (67 anos), não tem dúvidas: “só falta dinheiro para o cinema explodir!” Sol, de onde nasceu o gosto pelo cinema?

A gente não sabe por que tem gosto por uma profissão ou maneira de se expressar na vida. Recordo que no pós-independência, quando apareceu pela primeira vez a televisão e só se via apenas uma vez por semana, tinha também uma que era da Swazilândia, e a transmissão ficava muito cheia de grão, com qualidade péssima. Chegava a casa e encontrava o meu pai a ver televisão. O pior é que ele não falava inglês, mas havia qualquer coisa de fascínio muito grande que ele tinha pela imagem e que acho que herdei. Esta forma de olhar para as imagens e tentar identificar o seu conteúdo psicológico, emocional e físico, que é a função do cinema para mim.

São memórias inesquecíveis...

Há uma memória que considero interessante, e até a escrevi num guião para um filme. Nós vivíamos em Inhambane e nos dirigíamos ao Cinema Tofo, aos domingos à tarde, para ver filmes de “cowboys”, acção. Sempre que começava o filme,ficava tenso, as minhas funções orgânicas paravam de funcionar e ia à casa de banho vomitar. Aconteceu várias vezes, e só mais tarde percebi que era por causa do cinema. Então, não podes explicar por que gostas de uma coisa. Ainda pequeno, o meu quarto andava cheio de cartazes e quando fui estudar, em Portugal, roubava comida de vez em quando, porque tinha pensão reduzida e todo o dinheiro ia para o cinema (risos).

Então não houve empurrão do seu pai?

Não, pelo contrário. Tive de o convencer que ia a Portugal estudar Arquitectura. Fui fazer exames no Conservatório do Cinema e fui muito bem classificado. Pedi para escreverem a minha classificação e enviar para o meu pai. Ele recebeu a carta e já não tinha como voltar atrás. Depois, meti-me na política e, na altura da Independência, voltei a Moçambique para me “entregar à revolução.” Nem terminei o curso.

“Mabata Bata” acaba de vencer mais três prémios. Sente que o filme chegou onde desejava?

Ainda tem um caminho para andar, mas provavelmente já atingiu o seu pico. É preciso entender a dinâmica do circuito internacional. Se consegues entrar num festival de referência já é bom. Foi o que aconteceu com “Mabata Bata”. Entrámos no Festival Internacional de Roterdão, considerado um dos melhores do mundo, depois tivemos FESPACO, onde ganhámos duas categorias, na montagem e fotografia. Quando ganhas FESPACO, todos os festivais africanos e do mundo vão olhar para o teu filme.

“Mabata Bata” tem feito uma coisa que me dá muito prazer, que é correr em muitos festivais africanos. Já são 74 festivais, ganhou mais de 20 prémios e menções honrosas. O mais interessante é que “Mabata Bata” é um dos filmes mais baratos que fiz de longa-metragem. Custou entre 200 e 250 mil dólares. A diferença é que tinha uma equipa que estava todo o tempo a ajudar. Foi a capacidade de toda a equipa que deu força ao “Mabata Bata”. O filme não é apenas uma obra pessoal

Sente-se realizado com o filme?

Sinto-me, sim. Mas preciso de novos desafios. Todos nós precisamos. Leia mais...

TEXTO DE PRETELÉRIO MATSINHE

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