Núcleo de Arte sem alegria nem azáfama

Há cadeiras vazias e pincéis soltos. Os sons de marteladas e de soldadura que em tempos ecoavam a partir das oficinas do Núcleo de Arte silenciam-se. Os visitantes andam igualmente distantes da galeria por questões de segurança no âmbito da prevenção das infecções pelo novo coronavírus.

domingo conversou com alguns artistas plásticos no Núcleo de Arte que retratam o duro impacto da pandemia da covid-19 na sua criatividade e nos seus bolsos.

Fundado em 1921, o Núcleo de Arte é um lugar onde os artistas plásticos convivem, discutem técnicas, filosofias e processos criativos. “Até onde eu pude vivenciar, sempre foi assim e nunca antes tivemos uma crise igual a esta”, retrata Gonçalves Vasconde, artisticamente conhecido por Gonça, membro do Núcleo desde a década de 1990.

O céu estava cinzento quando domingo lá chegou. Ele, Gonça, talhava uma madeira junto de uma mangueira, quase à entrada de uma das oficinas do Núcleo. Como disse, a obra ainda não tem nome. “Estou a deixar fluir a inspiração que vem nestes tempos”, disse ele que vestia um casaco e botas cabedal de cor castanha. A camisa, tal como a calça, era azul turquesa. Na cabeça trazia uma boina preta.

Habitualmente frequentado por um público, maioritariamente, constituído por turistas estrangeiros, o Núcleo anda literalmente vazio, sobretudo porque os estudantes das artes também não têm aulas. E a consequência não podia ser outra: “não temos compradores das obras que produzimos”. 

“Desde que se decretou o estado de emergência no país, a vida no Núcleo de Arte não é a mesma. Isso está a afectar-nos negativamente e não temos como solucionar. Aliás, para evitar aglomerações no espaço, não ficamos todos aqui, daí esta falta de artistas. Muitos trabalham a partir de casa”, retratou Gonça.

De 10 ou mais artistas plástico que ali ficavam diariamente, apenas dois ou três encontram- -se num dia no Núcleo. “A ideia é garantir que o local não fique completamente fechado”.

O cenário deixa os artistas em completa nostalgia: “É doloroso chegar aqui e encontrar a nossa casa assim. Não é a forma como nós vivemos. Somos de partilhar sorrisos, frustrações, ideias... enfim, inspiramo-nos”, lamentou. Leia mais...

Maria de lurdes Cossa

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Fotos de Félix Matsinhe

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