“E porquê a urgência? Porque, em Nghamula - O Homem do Tchova (Ou o eclipse de um cidadão), Aldino Muianga segura-nos pela mão, e leva-nos de volta à nossa mais recente trajectória 

de fogo, morte e destruição, apontando-nos, dedo em riste, as marcas de sangue ainda fresco, derramado através das matas, estradas, aldeias e vilas desta nação Bantu, à beira do Indico plantada! E perguntando-nos se, como sociedade, estamos sabendo respeitar a memória dos nossos mortos e a cuidar dos nossos mutilados: mutilados físicos e psicológicos, mutilados sociais e políticos - ou se, pelo contrario, hoje por hoje, constituídos em sociedade mesquinha e egoísta, entregue, como da outra vez, a uma perigosa amnesia, não estaremos derrotando aqueles que ontem, como Nghamula, derrotaram a guerra? 

Nghamula narra o trágico percurso de um humilde pastor de gado que, das longínquas terras de Morrumbene, na Província de Inhambane, escapa da morte, de um pai déspota e violento, para, vários anos depois, acabar arrastando-se pelos subúrbios lamacentos da Cidade da Matola, empurrando o seu Tchova, já com uma só perna, pois a outra fora-lhe amputada no Hospital Militar, em consequência de graves ferimentos contraídos na guerra. Na verdade, ao abandonar a sua aldeia natal, sem rumo nem sonho de espécie alguma, mas apenas vagabundeando pelo deserto da vida, nos primórdios do conflito armado- o conflito da nossa vergonha nacional! – Nghamula acaba integrando as Forças Armadas governamentais, como soldado voluntário.

Nesta condição e circunstâncias, vai emergir, desse imberbe jovem camponês da aldeia de Dindane, um soldado corajoso e destemido, que vai sobreviver das mais atrozes sevícias e provações da vida castrense, e dos mais violentos e sangrentos combates com a rebelião anti-governamental, ao longo de anos sem fim.

Anos mais tarde, e já na qualidade de oficial do exército, comandando unidades especiais de proteção de colunas de viaturas no interior da Província de Gaza, Nghamula é gravemente ferido numa sangrenta batalha com os rebeldes. Evacuado em estado crítico do Hospital de Chongoene, para o Hospital Militar, em Maputo, o médico búlgaro, Dimitrius Dimitrov, não tem meias medidas: sentencia-lhe a amputação da perna, entretanto gangrenada!

Recuperado da operação, porém definitivamente incapacitado de regressar à vida militar, Nghamula é transferido do Bairro Militar, para o Centro de Mutilados de Guerra da Matola, aonde vai iniciar, mais uma nova caminhada da sua Gólgota, integrando aquele grupo de ‘’passageiros no final de uma viagem na rotação de um carrocel que os precipita no abismo do desamparo, na perplexidade de uma existência inglória, desbotada e vazia.

Obra profundamente perturbadora, Nghamula reconduz-nos para adentro de nós mesmos, denunciando a nossa enorme capacidade de nos desumanizarmos, abandonando-nos a nós próprios! Mas Nghamula é, acima de tudo, um alerta, um dobrar de sinos em nossa própria memória: contra a amnésia selectiva, o esquecimento conveniente, pois o pior desastre que pode acontecer a um povo é ele ser analfabeto de si próprio! Parece-nos ser esta, a mensagem de fundo que Nghamula nos traz, e em cuja transmissão Aldino Muianga nos reconfirma a sua apuradíssima técnica narrativa, madura e segura, resultando numa obra de arte excelente, tornada repositória de capítulos dolorosos da nossa memória colectiva! Com esta obra, o autor, médico que despendeu longos anos ao serviço do exercito governamental durante o conflito armado, quis também partilhar connosco parte importantíssima do seu próprio percurso pessoal, ao lado dos protagonistas da narrativa, que ele mesmo as reconhece como “suas companheiras nas trincheiras da guerra, na comunhão dos traumatismos físicos, psicológicos e por que não, sociais, provocados pelos conflitos de então. Pela generosidade de nos registar e devolver páginas dolorosas da nossa história, muito obrigado, caro confrade e amigo, Aldino Muianga!