Para além das caricaturas!

A França e a Turquia ou melhor Emmanuel Macron e Recep Tayyip Erdogan estão em rota de colisão. As declarações dos dois presidentes apontam para um conflito cultural-religioso. No centro desse discurso estariam, supostamente, as diferenças de valores culturais e religiosos e, sobretudo, a intolerância entre as partes, cujo epicentro seriam as caricaturas do jornal satírico francês Charlie Hebdó, que em 2015 publicou a caricatura do profeta Maomé, acto considerado blasfémia no Islão. A reacção dos radicais islâmicos foi atacar e matar doze funcionários daquele jornal e a França denunciou isso como terrorismo e explicitamente declarou que a liberdade de expressão fazia parte da sua cultura. Nessa altura, a Turquia condenou o ataque afirmando que “um ataque contra inocentes é um ataque contra a humanidade”.

A onda de violência, por causa das caricaturas, voltou a tomar contornos preocupantes com o assassinato, no dia 16 de Outubro de 2020, de Samuel Paty, professor de história que teria levado a caricatura de Maomé para a sala de aula para falar de liberdade de expressão. Este incidente, curiosamente menos violento que o primeiro, está a gerar uma tensão diplomática sem precedentes entre Paris e Ancara. Aparentemente, a razão da tensão tem a ver com a vontade do Presidente Macron de endurecer as medidas contra o Islão radical, em defesa do estado laico. Este posicionamento gerou uma onda anti-França liderada pela Turquia, que boicota os produtos franceses e o Presidente Erdogan afirmou que o Presidente francês precisava de “tratamento mental”. Uma afirmação que foi suficiente para Paris chamar o seu embaixador de volta. Diante da tensão, a pergunta é: porque é que o incidente de 2015, caricatura seguida de ataque, não gerou mal-estar entre os dois estados e o incidente de 2020 está a criar uma tensão diplomática sem precedentes?

Pode haver várias respostas, todas elas certas, mas se ignorarem a questão das disputas geopolíticas entre os dois estados, então serão irrelevantes para uma compreensão profunda da tensão. Na verdade, a questão, apesar de ser muito importante, neste caso é apenas um móbil. Paris e Ancara estão em lados opostos em pelo menos quatro conflitos, a saber: o líbio, o sírio, o arméno-azer e o greco-turco. Leia mais...

Por Paulo Mateus Wache*

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