Na gíria segundo a qual a paciência tem limite, cabe também a posição que o Conselho Superior de Comunicação Social (CSCS) tomou esta semana, através da sua deliberação número 1/2016, sobre o agravamento dos padrões técnico-profissionais e éticos da nossa Comunicação Social.
Como órgão criado pela Constituição da República, como instituição, através da qual o Estado garante a independência dos órgãos de informação, a liberdade de Imprensa e o direito à informação, bem assim o exercício dos direitos de antena e de resposta, não se devia manter calado perante os inúmeros e indesculpáveis atropelos à ética, à falta de rigor e objectividade que tornam inseguro nos últimos dias o exercício do direito à informação e à liberdade de imprensa dos cidadãos, porque rapidamente pareceu que ninguém velasse pela defesa do interesse publico e pelo respeito da ética social comum.
A deliberação, com razão de todo o tempo perdido, diz que desde o início do presente ano de 2016, a monitoria sistemática do desempenho da Comunicação Social, incluindo a imprensa escrita e a radiodifusão sonora e televisiva, bem como a avaliação pública geral do sector, que tem chegado à instituição, apresenta um quadro tendencialmente negativo, relativamente à qualidade técnico-profissional e ética. Há muito que isso está a ser assim, infelizmente.
Há muito que os princípios basilares da profissão jornalística, como a objectividade, procurada através da consulta a múltiplas fontes credíveis, a imparcialidade, construída através da apresentação rigorosa dos factos alegados, são deliberadamente ignorados e violados na Imprensa moçambicana.
Os deveres do jornalista, de respeitar os direitos e liberdades dos cidadãos, exercer a profissão com rigor e objectividade, abster-se de fazer apologia directa ou indirecta do ódio, racismo, intolerância, crime e violência, são constantemente ignorados pelos fazedores da Comunicação Social. Por isso, não se repudia o plágio, a calúnia, a difamação. A mentira mora no mesmo saco com a verdade. A acusação sem provas e a injúria coabitam com matérias sérias, o que põem em causa a vida de todos nós como um povo, um país, uma Nação, como entidade soberana, onde há valores e princípios a respeitar.
Parecia que o CSCS tinha pernas atadas, provavelmente, devido à sua constituição algo titubeante, por razões políticas por todos conhecidas e seria na sua terceira sessão ordinária, já com o preenchimento total dos lugares pelos seus titulares, que viria a voz condenatória firme, exprimindo publicamente a sua mais profunda preocupação pela tendência de abaixamento contínuo da qualidade técnico-profissional e ética da actividade dos órgãos de Comunicação Social de uma maneira geral.
Nós dissemos mais: estamos a ser um país estranho, que não se rege pelas regras de convivência (também na Comunicação Social) pacífica, onde se distribuem nomes e caricaturas a torto e direito a quem quer que seja, mesmo àqueles que nos representam nas instituições de soberania nacionais. Estamos a ser uma Comunicação Social onde a libertinagem se emula e o não jornalismo é aplaudido. Estamos a tornar-nos numa ilha onde o insulto, a violência e matança são aplaudidos, primeiro pelos próprios jornalistas e depois pelos órgãos de Comunicação Social.
Não se reprova a confrontação violenta como forma de resolver contenciosos. Pouco se luta pela transparência dos negócios, em especial dos negócios públicos. Não se denuncia arbitrariedades, a discriminação e a corrupção. Em fim, na nossa Comunicação Social não se pugna por um Estado de Direito onde quem manda é a lei, não se ficando indiferente a tudo aquilo que é humano.
É hora de a nossa Comunicação Social cerrar fileiras para fazer um jornalismo de qualidade, avesso ao sensacionalismo mórbido e à intriga. Um jornalismo que se paute pela ética e pela deontologia universalmente admitida. Um jornalismo de quem não deve, não teme. Corajoso sempre que necessário, subordinado ao lema “a verdade acima de tudo”. Custe o que custar.
É hora de os jornalistas primarem pela investigação aprofundada das estórias que se desenrolam em todos os quadrantes da vida, pugnar-se pelo homem livre, sabendo que o primeiro pressuposto da liberdade reside na informação que produzem ou que fazem passar aos seus receptores.
Alguém dizia que quando se quer escravizar um povo, começa por se lhe esconder a informação ou lhe passarem informações tendencialmente distorcidas. Porque só nos determinamos em função daquilo que conhecemos.