O Centro Cultural Franco Moçambicano (CCFM) será palco, sexta-feira próxima, de um concerto musical da Mingas, no qual a cantora apresentará parte dos 14 temas do futuro disco, intitulado “Vhumela”. Na senda do lançamento, que se adivinha para breve, domingo conversou com a artista e, nas linhas que se seguem, traça o seu perfil, marcado por diversas vicissitudes no país e no estrangeiro.
És detentorade voz afinadíssima. Tens um verdadeiro aprumo de voz. Beneficiaste de alguma formação na área de música?
Em 1990, pedi ao Chico António para me ensinar a ler a pauta. Chico fez música. Ele estava na Escola dos Seminaristas. Então quando estava no grupo RM, depois da Orquestra Marrabenta, pedi para ele me dar algumas aulas, do tipo ler a pauta, rítmica…
Não frequentou a escola de música?
Em 2000-2001, fui à escola de música, mas só davam aulas a crianças. Não ensinavam adultos. Deste modo não me restou outra hipótese senão pedir para me deixarem estar numa das salas com as crianças. Recusaram-se…
Face a isso, o que fez?
Reclamei. Perguntei qual seria, então, o espaço de adultos? Estariam condenados, eternamente, a não saber tocar e nem ler a pauta?
Eles disseram não. E sublinharam: “tu já nem precisas de aprender isso, pois já cantas bem. Todos gostam de ouvir-te”. Em contrapartida fi-los ver que precisava aprender mais para poder auto-superar-me…
Qual foi a reacção deles?
Mandaram-me fazer uma carta à direcção da escola, explicando as razões que me levavam a querer estudar música lado a lado com crianças. O gesto valeu, porque foi criada uma escola para músicos adultos. Já há muitos músicos adultos a frequentar aulas de música. Porém, eu não pude frequentá-las, pois já tinha muitas viagens…
Ou seja: contribuiu para que hoje tivéssemos uma escola de adultos…
Sim. Contribuí para que houvesse formação de adultos. Isso foi no ano 2000…
UM “MESTRE”
CHAMADO CHICO ANTÓNIO
Às vezes, você canta a contra-ritmo…
Sim canto. Isso depende do domínio do ritmo. Aprendi muita coisa sobre música com Chico António e foi muito bom. Há coisas que aprendi e não me esqueço como é o caso dos compassos. Foi aquele tempo dos compassos 2/2,2/4. Consigo fazer o tam..tam..tam.tam. e outro mais rápido..tatatata….ta. tatatata.
Participei no coral do grupo RM e Chico António estava também nesse grupo e era uma das pessoas que nos ensinava. Ele era tipo director musical. Exigia muito de nós. Queria que respeitássemos muito o tempo, seguí-lo, e mantê-lo. Cantar dentro da afinação. Ele era muito exigente e isso valeu a pena. O Zeca Tcheco e o Sox eram pessoas que conheciam a música mais do que eu. Mas o Chico, oh meu Deus! Era uma dor de cabeça. E irritava até…
Irritava, mas trouxe-te bons resultados?
Sim trouxe. Ainda bem. Aturei-o muito, mas também aprendi bastante. A exigência dele ensinou-me muito. Valeu.
Ainda na sequência do Chico António, você e ele têm uma cumplicidade artística na qual quase não precisam fazer sinais um para o outro…
Isso é fruto desse trabalho, do que fizemos em conjunto. Nós ensaiávamos todos os dias. O nosso trabalho baseia-se na prática, que é a chave do sucesso. Algumas canções nasceram ali…
Lembra-se de alguma música, a título de exemplo…
Nidwele mwanagôooo. É uma das canções que nasceu ali no estúdio. Quando esperávamos pelos outros chegarem. Eu fazia aquecimento com Matchote. Algumas vezes íamos aos microfones. Brincávamos fazendo qualquer som e alguns sons foram resultando em música…
MÃE INSPIRADORA
Há uma figura que sempre te acompanha: a sua mãe. Que influência ela tem na tua carreira, na tua vida?
Sabes que eu não tinha reparado nisso! Minha mãe cantava muito. Era cristã. Lembro-me que , antes do jantar, ficávamos sempre a contar Karingana wa Karingana. Todos esses contos tradicionais, populares folclóricos têm sempre acompanhamento musical. E a minha mãe sempre cantava para nós…
Já teve um grupo musical?
Tive um trio composto por mim, Silva Zunguze e Safrão Navesse. Cantávamos e compúnhamos. Fizemos alguns shows. Introduzimos a guitarra acústica na Igreja Metodista Unida, no Chamanculo.
Em que ano foi isso?
Foi por aí 1975. Era ainda muito jovem. Era menor.
E na escola?
Na Francisco Manyanga fazia parte dos grupos de cultura…
Quais eram as músicas que cantava nessa altura?
Cantava músicas de cantoras estabelecidas: Diana Ross, Roberta Flack, Leta Mbule, Miriam Makeba. Cantava essas canções porque ainda não compunha e não tinha nenhum tema cantado por mulheres em Moçambique.
E teve boa experiência ?
Sim. Foi bom no sentido de aprender a cantar. As bandas que me acompanharam foram muito exigentes. Cantei com Hokolokwe, não este recente. O Hokolokwe que me refiro tinha Spínola- viola baixo (que depois foi para Portugal); Rico Mgliet (teclado); Passarinho (bateria); falecido Tom Manjate (guitarra), Beatriz (cantava muito música brasileira. Depois foi para Holanda); Orlandine (era um travesti que fazia mímica – a verdadeira mímica. Ele não cantava, mas fazia mímica de forma espectacular). Essa malta era muito exigente em termos de canto. Trabalhei também com África Power, era o Jojó. Mundinho no teclado. Tocamos poucas vezes porque não eram a minha banda base. Acompanhavam-se quando ia tocar no Zambi.
Muito interessante…
Sim. Eles eram uma banda que não acompanhavam o músico assim do nada. Diziam: “se quer vir cantar aqui que traga a sua banda”.
MEDOS, CRENÇAS….
Os artistas são Deuses de si próprios. Cada concerto é sempre diferente e a inspiração também varia de palco para palco. Uns se inspiram na plateia e outros ganham ritmo cantando. Mas, humanos que são, têm os seus medos, desafios. Quais são ?
Quando se prepara um espectáculo, ensaia-se para aperfeiçoar-se a performance, para não desafinar, passando a passagem emocional. Mas sempre, eu pelo menos, tenho medo das pessoas que vão para lá. Primeiro não sei se terei público, o que me assusta. Quando tenho público, tenho medo do que este espera. Há sempre uma incógnita…
Pratica algum ritual para enfrentar esse medo?
Sempre faço exercício físico, o que me ajuda muito a relaxar. Faço sempre exercício físico. Mesmo no dia do espectáculo vou correr. Parecendo que não, os próprios exercícios de aquecimento de voz fazem relaxar. Só um simples facto de fazer mímica ajuda a aliviar o stress.
Há alguma comida especial para o dia do concerto?
É sempre bom comer a refeição de casa que se sabe que não faz mal, não cria problemas. Prefiro o leite, corn flakes, iogurte. É uma das melhores coisas para comer e ir ao palco.
Basicamente comidas leves?
Sim. Tem que ser leves porque quando se canta usa-se muito o abdómen. Não se pode respirar profundamente e rápido. É preciso estar relaxado. Mas também o cantor não deve estar com fome…
MINGAS EM CAUSAS SOCIAIS
Há poucos anos participaste na campanha sobre os Objectivos do Milénio.
Sim participei em 2010, quando se realizou o Campeonato do Mundo na África do Sul.
Qual foi o teu papel?
Angelique Kidjo, eu, Jimmy Dludlu, Ivone Tchaka Tchaka, dentre outros, fomos escolhidos para podermos chamar atenção ao mundo sobre os oito objectivos de desenvolvimento do mundo. O meu ponto era o número quatro, sobre a mortalidade infantil.
Cada um de nós cantava um terço daquilo que tivesse a ver com a sua área. Como já tínhamos nosso público, acharam que devíamos usar as nossas vozes para apelar para redução de casos de mortalidade infantil. A nossa missão era dar continuidade ao que os políticos haviam ratificado…
Fala-se na praça, à boca pequena, que você é a artista que mais cobra…
Eu não sei. Depende de espectáculos, do tipo de evento, do cliente. Há eventos em que entram artistas internacionais, o que implica que há mais condições. O que peço para o nível nacional, por vezes, parece caro. Mas não é caro…
Como foi a sua experiência de trabalho com a cantora Mirian Makheba?
Trabalhei com Mirian Makheba. É claro que ela estava muito distante do meu nível. Cada vez que se trabalha com outros artistas ganhamos mais experiência. E é preciso saber-se que quando você trabalha com certos artistas, isso deve ser valorizado. E outra coisa que sinto é que nós os mais velhos temos que criar condições mínimas. Eu não posso me sentir bem se os membros da banda não se sentirem confortáveis. Se eu não valorizo o meu trabalho, imagino os que estão abaixo de mim. Imagine que como corista, na Mirian Makheba, fazia um certo valor. E aqui como líder não conseguia o mesmo valor…
Belmiro Adamugy, Frederico Jamisse e Maria de Lurdes Cossa
Fotos de Inácio Pereira