TEXTO DE GENÉZIA GERMANO
O primeiro choro anuncia vida. É um som que traz alívio, emoção e promessa à mãe. Mas, nas maternidades de alguns hospitais do país, esse momento não marca o início da tranquilidade. Depois do parto, quando mãe e filho deveriam encontrar descanso e protecção, começa outra realidade – a de partilha forçada, espaço reduzido e risco silente.
É após o parto que o cenário se revela mais duro. As mulheres, ainda fragilizadas pelo esforço de dar à luz, são encaminhadas para enfermarias. É lá onde inicia o dilema. As camas não são suficientes. O espaço que deveria ser individual, torna-se colectivo. Uma única cama passa a acolher duas, três, por vezes quatro mães, cada uma com o seu recém-nascido. Os corpos, estes, alinham-se, comprimem-se, adaptam-se. Os bebés, ainda envoltos em capulanas, permanecem próximos uns aos outros, sem distância suficiente para garantir segurança.
A maternidade transforma-se, então, num espaço de sobrevivência partilhada.
O repouso, essencial nas primeiras horas após o parto, torna-se quase impossível para as mães. E, quando estas conseguem, tentam encontrar uma posição que lhes permita se mover com cuidado para não invadir o espaço da outra. Seguram os seus bebés com atenção redobrada, temendo qualquer contacto indesejado. É que os recém-nascidos chegam ao mundo frágeis, com o sistema imunitário ainda em formação. Por isso, um ambiente limpo, controlado e seguro, é fundamental. No entanto, nestas maternidades esta exigência é praticamente nula. Quase tudo é partilhado. E, por isso, a linha entre cuidado e risco torna-se ténue.
Nisto, as infecções são facilmente contraídas, num ambiente onde a rotatividade de pessoas é elevada. Leia mais…



