TRADIÇÕES E RITOS: A mulher deve ser preparada para o lar

afirmam conselheiras em defesa doritual tradicional “kulaya”, num bate-papo com o domingo

Num passado recente, a responsabilidade pela iniciação da mulher para o lar era das tias e madrinha. Actualmente, o acto foi dinamizado, existem serviços prestados por grupos de mulheres que preparam a ala feminina para a vida a dois.

Alexandrina Zúcua, membro do Grupo Kulaya, das mulheres crentes da Igreja Metodista Unida de Moçambique, defende a importância de ensinar a mulher a saber ser e estar com o seu marido no lar. “As mulheres devem ser preparadas”, entretanto, segundo afirmou, existem coisas que as famílias, especificamente mães e tias, têm receio de falar com as suas filhas.“Exemplo disso é a sexualidade e a higiene individual. Tivemos casos de meninas que iam para o lar e não sabiam como higienizar o seu próprio corpo; não sabiam como amarrar uma capulana. O nosso dever é ensiná-las um pouco de tudo. ‘Layar’ (aconselhar)as mulheres”.

Trata-se de uma prática tradicional que existe há vários anos, realizada em diferentes pontos do país, de acordo com os usos e costumes de cada região.

Nampula, no Norte, constitui a província onde esta tradição ganhou maior expressão. O Kulaya pertencente à Associação Tufo da Mafalala, é um exemplo de migração das suas formas do Norte para o Sul de Moçambique. Hoje, vários são os grupos na província de Maputo, originários daqui e não só, e  até instituições que realizam as referidas cerimónias.

Em conversa com o domingo, as integrantes da Associação Tufo da Mafalala explicaram que em Nampula o ritual é conhecido por ossincania, e cimenta práticas tradicionais de raiz muçulmana que se foram espalhando pelo país, esboçando, sobretudo, uma trajectória pelo litoral.

Através de Saquia Rachid, natural de Nampula, uma das conselheiras do grupo há vários anos, ficámos a saber que existem pessoas indicadas para fazer a iniciação das mulheres para o lar.“Na nossa religião muçulmana este ritual é realizado pelas nossas anciãs que frequentaram a mesquita e estudaram o alcorão. Estas mulheres são chamadas de halifa. Elas fazem rezas, pedem a Allah (Deus) que lhes dê forças para transmitirem correctamente os conhecimentos e abençoe a noiva e o lar que pretende formar”, disse.

Após as orações as anciãs iniciam a cerimónia que deve ser acompanhada apenas por mulheres da família da futura esposa.

Ali, abordam diferentes questões relacionadas com o respeito e a harmonia no seio da família. A futura esposa aprende, ainda, a organizar a casa e cuidar do seu marido.

“Na nossa tradição, uma mulher que se casa sem fazer o kulaya é comparada a uma criança porque não sabe o que vai fazer e como cuidar do seu lar”, revelou.

SEXUALIDADE

A sexualidade constitui um dos aspectos abordados, conforme referiu Saquia Rachid. O tema é aflorado num circo restrito onde devem participar apenas mulheres casadas ou nas vésperas do casamento.

Aqui passam a saber mais sobre como lidar com a sexualidade, a conhecer e cuidar do seu corpo e do seu esposo.

“Muitas pessoas aqui em Maputo dizem que a mulher macua faz feitiço para estar no lar por 20 ou 30 anos, quando isso não constitui a verdade. A mulher macua não faz nenhum feitiço. Não há casal que não tem desentendimento. Entretanto, tudo passa pela forma como a sua família a prepara para ir para o lar”,explicou Saquia.

Hoje o “kulaya” envolve as duas famílias

afirmam conselheiras da Igreja Metodista Unida

O trabalho de aconselhamento “kulayadesenvolvido pelo grupo da Igreja Metodista Unida é feito há sensivelmente 15 anos. Para além de realizar sessões de ensinamento bíblico sobre o sentido e o propósito da união entre o homem e a mulher, traz a componente de aconselhamento sobre a vida a dois nas diferentes áreas domésticas, de suma importância para a consolidação e harmonia no seio da família que é recém-constituída.

 “Fomos incentivadas a criar este grupo através de uma irmã da igreja, Sara Munhequete, que residiu no Malawi. Explicou-nos como é que as mulheres mais velhas da igreja ajudavam às noivas a prepararem-se para o lar”, afirmou Elisa Banze, membro do grupo.Nesse caso, a sexualidade, higiene individual, economia no lar, a vida conjugal, violência, comportamento e a importância da capulana têm sido os pontos abordados nas suas sessões.

 

Segundo a nossa fonte, para estas mulheres é importante que se passe estas informações de forma clara e objectiva. “Estamos a viver momentos difíceis, sobretudo com relação aos princípios morais. Os casais devem cultivar o respeito e conduzir a resolução dos problemas de maneira saudável”, defendeu.

Para esta mulher, a interferência excessiva das famílias de ambas as partes na vida do casal tem sido outro tema de grande debate. “Quando vamos a uma sessão de kulaya, pedimos que as mães, tias e madrinhas das duas partes estejam presentes, porque nos interessa que sejam aconselhadas sobre a nova vida conjugal. A partir daquele momento passam a saber que existem limites ao interferir no lar dos seus filhos, sem que isso signifique deixar de cuidar deles”.

Num outro desenvolvimento, Elisa Banze disse que “as mães devem parar de ver as noras como uma ameaça e vice-versa. Só para ilustrar, já fomos à casa de uma família em que estavam, constantemente, a se ofender porque a nora não a chamava de mãe, mas sim de avó e alegava que não a conseguia chamar de mãe, isso criou um alvoroço na família”.

A nossa interlocutora afirmou que apesar de esta prática já ter iniciado há anos, ela traz uma abordagem actual. O “kulaya” atribuía toda a responsabilidade às mulheres e pouco se olhava para os homens como provedores de bem-estar no seio familiar. “Hoje, pedimos a presença do noivo na sessão, uma vez que o homem e a mulher já estão em pé de igualdade no que diz respeito ao nível académico e profissional. O que é positivo. Mas é preciso saber gerir esta realidade com sabedoria, o homem deve saber dialogar e apoiar a sua esposa, da mesma forma que a esposa deve saber respeitar o seu parceiro”, apontou.

É no quarto onde se aborda tudo

Míriam Mbaze, Grupo Malagueta AfricanasPara o Grupo Malagueta, constituído por três mulheres, o “kulaya” constitui uma oportunidade de as mulheres aprenderem e descobrirem mais de si. De acordo com este grupo, o trabalho de aconselhamento não é procurado apenas por mulheres que vão constituir um lar, mas também por mulheres que já se encontram no lar. “Pelas sessões que já tivemos, dá para perceber que muitas mulheres foram ao lar sem saber o verdadeiro sentido da vida a dois. Ao se submeterem ao kulaya (aconselhamento) aprendem coisas que já deviam saber antes de ir ao lar”, revelou.

 

Para a nossa entrevistada, este desconhecimento, muitas vezes, está associado a tabu. Segundo disse, o aconselhamento passa a ser uma solução, ora as noivas encaminhadas pelas mães, ora pelas amigas.  

Entretanto, a gestão da vida conjugal é um dos assuntos muito solicitados. “É no quarto onde tudo se aborda. Desde a sexualidade até os problemas mais delicados e íntimos. Transmitimos às mulheres a importância de saber quando e onde abordar os problemas, que vão tendo ao longo da sua vida a dois. Ensinamos que o quarto é o seu santuário”, revelou.

Segundo a nossa fonte, é importante que a mulher aprenda a ser segura e sensual ao mesmo tempo.

Nos trabalhos de kulaya já realizados ao longo das províncias pudemos perceber que as mulheres do Sul são educadas a ser submissas, cuidar do lar e fazer filhos. No Norte e Centro as mulheres são mais abertas e preocupadas com a sua satisfação sexual e do seu parceiro em primeiro lugar”.

Os homens já procuram aconselhamento

Miriam Mbanze afirmou que os homens também já começam  a procurar aconselhar-se mais sobre a  vida conjugal. Temos homens casados com idade entre os 45 e 65 anos que procuram saber mais sobre como aflorar mais a vida sexual deles.

 

“Muitos homens pensavam que sexualidade é pornografia, porque viveram a juventude toda consumindo muita pornografia e pouco sabem da importância de tocar e estimular a sua companheira”.

 

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