Um vizinho discoteca!

Em um certo bairro da cidade de Maputo, daqueles com ruas muito bem organizadas, estreitas e cujos residentes respeitam as normas, não constroem o muro fora do seu recinto e nem erguem barracas em frente da casa para fechar ou ocupar o passeio, vivia o senhor Jorge.

 

O senhor Jorge trabalhara nas minas da África do Sul por muito tempo. Saiu de Maputo em 1991 em busca do viver. Conseguiu emprego numa companhia mineira e, vivendo lá, trimestralmente, mandava ovos, saco de batata, pão de forma (vulgo xinkwa), maionese, arroz, superblack para a mulher pintar cabelo, entre outras coisas.

Acontece que em 2016 o senhor Jorge atingiu a reforma e voltou para casa. Cheio de dinheiro, um carro Toyota Hilux dupla cabine, cabelo sempre pintado, a brilhar e quase a voar, senhor Jorge era o rei na sua rua.

Doravante, tinha o hábito de a partir das 05h00 da manhã acordar, tirar duas colunas grandes e montá-las no quintal para pôr música num volume bem alto. Para os que têm de ir ao serviço, a música servia de despertador. Aos que tinham o privilégio de continuar a dormir por razões várias, a música era incómoda, pois tirava-lhes o sono. A “farra” matinal continuou por muitos meses até que os vizinhos apresentaram queixa ao chefe do quarteirão que também se queixou de inúmeras vezes ter acordado por causa da música. Em comuna, decidiram visitar o senhor Jorge para lhe chamar atenção e apelar que baixasse o volume. Respeitoso, mas com ar de arrogante, senhor Jorge ouviu a mensagem dos vizinhos e disse que faria algo. Entretanto, nos dias seguintes, a música continuou com o volume mais alto ainda. Incrédulos, os vizinhos desistiram, passando a ser aquele cenário o pão de cada dia.

Há dois meses, um filho do senhor Jorge, com 12 anos, foi atropelado mortalmente. As cerimónias fúnebres foram marcadas para sábado. Três vizinhos com família e bastante respeito mandaram as suas mulheres para os representar nas cerimónias. Eles ficaram em casa. Juntaram as suas colunas e numa casa ao lado começaram a fazer a “farra”. Bebiam e gritavam na companhia de outros amigos que haviam chamado. O barulho incomodava a todos na rua, incluindo os que acorreram à casa do senhor Jorge para as cerimónias. A meio das orações, o senhor Jorge saiu da mesa e dirigiu-se aos seus vizinhos para pedir que baixassem a música. Um dos vizinhos disse: “É mais ou menos isso que nós temos passado ao longo desses dois anos, quando você decide ligar a música, nas manhãs, com volume alto”. Quase que a chorar e sem saber o que dizer, o senhor Jorge virou as costas e voltou para casa. Os senhores da “farra” desligaram a música e mesmo bêbados foram à casa do senhor Jorge acompanhar as orações.

No dia seguinte, o senhor Jorge acordou às cinco da manhã. Mas desta vez não foi para tocar música. Tirou o carro da garagem e meteu toda a aparelhagem e foi ao mercado informal Estrela Vermelha vendê-la. Ultimamente, o senhor Jorge tem sido visto na Igreja todos os domingos e já saúda e convive com os vizinhos.

Por Frederico Jamisse

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