Outra vez eleições de armas em punho?

Os moçambicanos estão a estranhar a notícia do adiamento sine die da sessão extraordinária da Assembleia da República que havia sido marcada para 21 e 22 deste mês e que tinha como agenda a revisão do pacote eleitoral, tendo em vista as eleições autárquicas de 10 de Outubro e das gerais de 2019.

Este espanto não se deve apenas ao adiamento em si, mas sim à razão que, afinal, está por detrás desta dilação: desentendimento das bancadas da Frelimo e Renamo em relação às questões militares, nomeadamente o desarmamento, desmilitarização e reintegração das forças residuais da Renamo nas Forças de Defesa e Segurança (FDS), antes do escrutínio de Outubro.

Semana passada, durante a visita às províncias de Inhambane e da Zambézia, como que a prever o impasse que dias depois seria tornado público, o Presidente da República manifestou, repetidas vezes, o desejo de ver o dossier militar fechado o mais rapidamente possível, portanto, antes de Outubro.

Aliás, a mesma linha de pensamento viria a ser perfilhada, semana passada, pela bancada parlamentar da Frelimo que defende que a aprovação da proposta de revisão da legislação autárquica pela Assembleia da República deve acontecer se existirem sinais inequívocos de avanço na resolução das questões militares. Entende o partido no poder que a descentralização e o desarmamento da Renamo são dois processos ligados e que devem acontecer ao mesmo tempo. Correcto!

No entanto, a Renamo, por sua vez, advoga que não tem mandato para interferir no diálogo em curso ao mais alto nível, envolvendo o Chefe de Estado e a nova liderança da “perdiz”, sobre as questões militares que, conforme avalia, está no bom caminho e que poderá culminar com a integração das forças da Renamo até Outubro. Se não é o Parlamento, quem mais pode interferir?, perguntamos nós!

Este extremar de posições parece prenunciar a vontade da Renamo de que em Moçambique as eleições, à semelhança do que vem acontecendo desde 1994, voltem em 2018 e 2019 a realizar-se num clima de ameaças, por causa da persistência dos homens armados sob tutela deste partido político.

Se o país escolheu a democracia multipartidária como seu modus vivendi fê-lo porque acredita ser este o caminho certo que, aliás, é seguido pela maioria dos países pelo mundo inteiro. Este modelo, como se sabe, não se compadece com a manutenção de partidos armados e elege o discurso político como a única via para se atingir o poder. Outra forma não existe.

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