Roupa íntima da xicalamidade “facilidade” que pode custar caro

Texto de Carol Banze

Adquirir roupa íntima como calcinhas, soutiens e cuecas em amontoados de xicalamidade, uma expressão usada vulgarmente no país para denominar artigos de segunda mão, pode parecer uma via menos onerosa para os bolsos de alguns cidadãos. Mas, autoridades de Saúde chamam atenção para o risco de contrair doenças ao se colocar essas peças em contacto com o corpo.

Só para exemplificar, em caso de mulheres, que se afirma terem maior vulnerabilidade às infecções urinárias por causa da própria anatomia do sistema urinário, usar essas peças sem observar as regras de higiene, pode trazer sérios dissabores.

Noutra perspectiva, estão posicionadas as autoridades tradicionais que interpretam essa opção como uma aberração, afinal, sob ponto de vista dos nossos costumes, psa yila (é imoral) expor, vender e usar roupa íntima que tenha passado pelo corpo de outra pessoa.

Enquanto isso, o negócio anda às mil maravilhas. Só não compra quem não quer. Há de todas as cores e tamanhos.

Sobre qualidade só se diz tudo de bom e sobre o preço também, afinal em qualquer circunstância de compra e venda, há sempre espaço para comparações.

Julieta Muando afirma que chega a poupar 50 %, quando compara com as aquisições feitas em lojas de venda de artigos de primeira mão. “Poupo muito, principalmente em roupa de criança”.

Já no que, especialmente, à roupa íntima diz respeito, valores pecuniários à parte, a qualidade é deveras enaltecida. “São mais resistentes. Até o meu marido aprova e incentiva a compra”. Em relação ao risco de contrair doenças e a gerência de preconceitos por serem peças usadas, nada é levado a peito. Pelo menos por Julieta, facto contrariado por cidadãs como Joana Ricardo, cuja coragem encontra um entrave quando o assunto é comprar… calcinha. “Calcinha não!”, deixa claro, até porque “dizem que não é bom, traz doenças. Algumas são encardidas e até sujas. Soutien, sim. Tenho comprado aqui. São resistentes”, diz, num mesmo em que apreciava uma destas peças.  A verdade é que o negócio existe e já lá vão muitos anos. Marta Novele, residente em Albasine, na cidade de Maputo, encontra-se nesta actividade há pelo menos 10. “Estou nas calcinhas porque é um negócio rentável”, revela.

 

O fardo destes artigos sai-lhe, conforme diz, a 12 mil e quinhentos Meticais. E “vendo por 35, 25, passados dois ou três dias após a abertura do fardo, ou por 75 a 50, no próprio dia”. Estes são também os preços de Soraya Jona, residente em Hulene, que pratica este comércio há alguns meses.

Na sua banca está exposta roupa para todas as idades, mas o que mais chama atenção são boxers masculinas, sendo que nutre mais simpatia por estes clientes, pois “não têm vergonha de escolher e pagar” sob a mira de muita gente.

Este negócio sustenta, igualmente, a família de Mestarina Alexandre, que migrou de Massinga até Maputo à procura de melhores condições de vida. A sua estratégia de negócio, iniciado em 2012, passa por arriar o preço até 10 Meticais para abranger todos os bolsos.

E por falar em capacidade, os clientes são mesmo variados. “Vem até pessoas chiques para aqui”, diz Mestarina Alexandre; “pessoas de todas as posses”,afirma Soraya Jones, facto confirmado por Cremildo Machaieie, residente em Maputo e vendedor de roupa íntima há 10 anos.

Para ele é um ganha-pão feito com muito prazer: “trabalho diariamente feliz, pois o movimento envolve mulheres. Isso dá prazer”, considera.

Com a vergonha deixada de lado, encara o seu trabalho de cabeça erguida, sem preconceito. Ele e o Gibóia Nhamache, também residente nos arredores da cidade de Maputo, que se posiciona em um dos passeios da cidade, de forma espontânea e sem preconceito, içando e esticando, a todo instante, os artigos vendidos em sua banca.

No entanto, há quem não vê com bons olhos este comportamento. Algumas idosas que conversaram com a nossa reportagem colocaram-se contra o comércio de roupa íntima na via pública. É o que encontramos nos depoimentos que se seguem.

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