Texto de Carol Banze e Fotos de Carlos Uqueio

A sua história segue um traçado tortuoso desde o início da sua existência. David Maurício foi abandonado pela respectiva progenitora num contentor de lixo nos primeiros momentos da sua vida. O destino prescrito pela mãe persegue-o até aos dias actuais. Aos 39 anos de idade, garante que jamais encontrou a felicidade, de tal forma que, em tom de desabafo, afirma que “preferia não ter feito parte do mundo dos vivos”.

Na verdade, o dia-a-dia deste homem de estatura média, feições perfeitas, olhar penetrante e fala cativante remete às contrariedades a que a vida leva, facto corroborado pelo percurso desaventurado, mapeado de rejeições e maus-tratos.

David traça o seu próprio retrato que inventaria um momento em que é resgatado literalmente do lixo e, após a restauração da sua saúde, vai parar às mãos de uma mulher que passou a ser sua mãe. 

Nessa altura, ainda desconhecendo a história sobre a sua família biológica, recebeu um acolhimento, assim-assim, pois “não me sentia feliz”. Às vezes a carga era pesada,“o que me levou a questionar se de facto aquela senhora era minha mãe. Acordava-me antes das 5.00 horas da manhã para me mandar à machamba”, denuncia.

A relação era conturbada: os santos de mãe e filho (adoptivo), simplesmente, não se cruzavam. Consequência disso foi que o desempenho escolar do então menino declinou; chumbou por PPF(ausência nas aulas) e, como que um epílogo, abandonou este lar. Fugiu das torturas físicas e psicológicas que sofria.

Tempos depois, conseguiu dinheiro e emigrou para a África do Sul na companhia de um amigo. Lá, a vida não lhe sorriu, fazendo jus ao seu karma. A solução foi regressar ao solo pátrio. Num primeiro momento, viveu debaixo de um tecto no bairro 25 de Junho, às suas expensas. Mas, tempos depois, passou por apertos, de tal modo que “voltei a morar na rua”.

DESPREZO

A cidade é um espaço de encontros e desencontros, de ocorrência de factos que geram frustrações e desolações, afinal, a disparidade de oportunidades é imensa.

Parte dos bem-aventurados que por aqui circula apresenta-se, aos olhos de David, de queixo e nariz empinado, espalhando o desprezo e a intolerância. “Muitos não nos cumprimentam, não dão carinho, nem sequer olham para nós! E eu sinto falta de carinho, do calor humano. Sinto falta de mãe, pai… isto mexe comigo (confessa de olhos marejados),não gosto nem de falar deste assunto”, desabafa.

David chegou a procurar conforto espiritual frequentando uma igreja. Mas o resultado nem de longe perseguiu o nível de restauração psicológica desejado. No meio dessa crise existencial, as noites são mal passadas, ameaçadas por pensamentos obscuros que o levam, sistematicamente, a pensar que “não devia ter nascido, queria ter saído como um nado morto”.

Nem os seus dois filhos, frutos de duas relações que não vingaram, reúnem motivos fortes para criar alguma simpatia pela vida. Contudo, enquanto vai levando numa barca agitada, a rotina de David Maurício começa às 8.00 horas da manhã, quando acorda e faz a higiene pessoal nos sanitários públicos, contando, para tal, com a ajuda de guardas de empresas localizadas a poucos metros do espaço por si escolhido para se estacionar, algures na parte baixa da cidade de Maputo.

Bem-apessoado, deixa claro que, não obstante o facto de morar “à maneira”, não descuida da imagem.“Uso sabonete para o banho, pasta dentífrica e uma escova para a limpeza da boca. Depois, tomo chá com pão e manteiga ou ovo, comprado em bancas da rua por 30 meticais”. O almoço tem sido ao meio-dia, um prato que varia de 80 a 100, valores pagos graças ao rendimento como polidor de carros. Já o jantar é por volta das 20.00 horas, um momento que antecede as sessões de conversa com os seus amigos, que, normalmente, se alongam até por volta da meia-noite e uma hora. Os companheiros de trincheira são vários. A noite não somente é feita para dormir. Também esconde estórias de vários personagens que, à semelhança de David, navegam em marés turbulentas como consequência do mau relacionamento com os respectivos familiares.

 

Mas não só de conversa vive o homem. David sente, também, vontade de se relacionar afectivamente. Entretanto, os momentos de prazer ocorrem, geralmente, longe do seu cantinho de descanso, onde tem montada uma esponja e dispõe de um lençol e uma colcha para se proteger da corrente fria. Justificando o facto, afirma que, quando convidadas, “as mulheres não aceitam namorar na minha esquina. Receiam ser atacadas fisicamente, não confiam em nós (moradores de rua). Por isso, esses momentos de amor acontecem em lugares nada comuns”, expõe. 

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