Ginga, bom gosto e vitalidade do vovô centenário

Texto de Carol Banze

Não é nenhuma história de quadrinhos. Paulo Ndlate, viúvo, natural de Matutuíne, é personagem real, um vovô que vem galgando, desde 4 de Maio de 2018, a escada dos 100, exibindo ginga, bom gosto e vitalidade.

 

O que mais impressiona neste aniversariante de muitos anos de vida é a sua capacidade de driblar as contrariedades que esta vida e tanto lhe têm pregado. As falhas da audição entram nesses percalços, mas nada a ponto de atrapalhar a faculdade de exteriorizar o que lhe cabe na sua telha. Até porque os restantes órgãos de sentido conspiram a favor da sua existência: os olhos aliam-se à cognição, no momento de contemplar e interpretar o mundo.

É através da escrita e leitura de mensagens que a comunicação se torna possível. “Hi mani lweyi?” (Quem é esse indivíduo?), foi desta maneira que iniciou o contacto do vovô centenário com a equipa do domingo. A resposta para a sua indagação veio em seguida, pela mão da sua neta. “Va jornalista, vovo” (são jornalistas, vovô), escreveu em uma folha de papel.

O que seguiu foi uma exclamação: “Ahhhh…”, a equipa posicionou-se e o bate-papo rolou à medida do possível.

O que nos foi passado, em primeiro lugar, é que vovô Ndlate faz parte de uma distinta família que, segundo as falas do lugar que o viu nascer, deu nome ao distrito de Matutuíne. “O meu avô, explica a filha do centenário, chamava-se Matutu. Tinha muita influência naquela zona, o que levou a que os portugueses (então colonos) nomeassem a área de Matutuíne”, revela.

Foi nestas bandas que o então menino Paulo frequentou a escola. Estudou até à 2.ª classe. Mas a sua proficiência na escrita é fruto dos estudos ao nível da religião, onde, aliás, formou e moldou a sua personalidade. “Ele é extremamente religioso e passou os princípios da religião para nós, seus filhos, netos, bisnetos”, declara uma das filhas.

Animados com a recolha de dados, o repórter fotográfico desata a fazer imagens. O velho Paulo mira-o, desconfiado, ao que a filha tratou de esclarecer: “Ele não gosta de tirar fotos. Acha que se trata de uma manobra para lhe roubarem o dinheiro que recebe da sua reforma nas minas”. Ah, afinal vovô Ndlate foi mineiro? Perguntámos, na sequência. “Sim. Aliás, foi lá onde adquiriu o problema de audição, devido ao barulho das máquinas”, aclara.

Mas, de um modo geral, a sua saúde vai muito bem e obrigada. O auto-proclamado assimilado desfila, diariamente, agarrado à sua bengala de pau-preto, de calças formais, camisa, pulôver e casaco. “É muito vaidoso e sempre diz mina ni musimiladu (eu sou um assimilado: designação usada no tempo colonial para nomear um certo grupo de pessoas que gozavam de algumas regalias)”, entrega a filha.

Em seguida, fitámos o olhar no seu semblante, e uma pergunta foi inevitável. “Vovo, a um hanyisa kuyini a khale?” (Como é que viviam no passado?). A resposta foi tão-somente como esta: “Ni Hanyile… nwina munga ta fika lani (Eu vivi, vocês não chegarão a tanto). Encerrada a resposta, sobreveio a gargalhada generalizada. Sim. Aquela foi a resposta não só de um centenário, como também do antigo secretário do bairro de Machear, localidade de Salamanga. Um grande agricultor e criador. “Ele foi grande. Foi também evangelista na igreja Presbiteriana. Os seus feitos são reconhecidos até aos dias que correm, de tal forma que na festa de comemoração dos 100 anos do meu pai estarão presentes várias estruturas administrativas e religiosas”, afirma a sua herdeira.

E por falar em procriação, Paulo Ndlate trouxe ao mundo 6 filhos, dos quais, actualmente, somente 3 vivem. É avó de 21 netos, bisavô de 27 e trisavô de 1.

Hoje, mora com a sua filha mais nova, que se embala, diariamente, com várias histórias memorizadas e contadas pelo seu progenitor. O seu conhecimento é, essencialmente, baseado nas escrituras sagradas, afinal, “passa o tempo lendo a bíblia e também canta, ora, infalivelmente, antes das refeições e em outros momentos do dia”, revelam os seus familiares.

De paladar exigente, gosta de uma boa carne, ainda que traído pela dentição. “Ele não quer saber de verdura, chega a deitar lágrimas quando lhe são servidas”, revelam. Ao matabicho toma leite misturado com milo, sendo que “sem isto não faz a refeição. Não quer saber de folhas de chá”. A sua lista de exigências não termina por aqui: Não bebe água por nada deste mundo.“Chega a insultar-nos quando lhe servimos. Adora refrigerantes até quando tem de cumprir alguma medicação em comprimidos”.

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