AINDA SOBRE GORONGOSA: Por detrás das tréguas pontificou a acção das FDS

As populações que vivem nas antigas posições da Renamo, na zona da Gorongosa, mostram-se reticentes quanto à certeza de que estejamos a caminhar para uma paz efectiva e definitiva. Desconfiam a seriedade do movimento politico-armado, tendo como base as promessas dos últimos 20 anos e conjecturam que a posição tomada pelo seu líder pode estar a dever-se ao facto de as FDS terem fustigado de forma impiedosa os seus esconderijos.

Para além da missão que tínhamos de ir confirmar ou não a retirada das FDS das posições antes pertencentes aos homens armados da Renamo, depois ocupadas pelo exército, foi útil saber dos residentes da serra da Gorongosa que, afinal, na sua opinião, terá sido esse posicionamento que precipitou as anunciadas tréguas unilaterais sucessivas que viriam a ser correspondidas por aqueles a quem cabe a tarefa de defender as populações.

“ Duma ou doutra forma gostamos. O alcance da paz está acima de todas as circunstâncias que ditaram e estão a condicionar o regresso ao ambiente de relativa tranquilidade que desde 26 de Dezembro de 2016, data do anúncio do primeiro período de trégua (de 7 dias) pelo líder da Renamo estamos a viver” explica-nos Ramos Belo, jovem de 18 anos de idade, em plena região de Nhauchenge, que acrescenta:

Esta era a posição para onde as forças da Renamo vieram depois de saírem, primeiro, da base de Santugira, depois de Namadjiwa, onde, de novo viriam a ser escorraçados”.

A nossa fonte diz que a região cheirava, na verdade, a pólvora, porque diariamente havia recontros militares entre as duas partes, tal que as populações que escaparam a servir de escudo dos guerrilheiros da Renamo fugiram para as regiões inferiores da serra da Gorongosa, alguma das quais estão a experimentar um regresso titubeante, com a retomada das principais posições em Santugira, Namadjiwa, Mpangapanga, Nhangunga, Nauchenge, Nanthaca, Mucossa, Nhariroza, Nhandar, entre outras.

Ramos Belo, gostaria de voltar a estudar, pois a guerra interrompeu-lhe há três anos, quando estava a frequentar a 5ª classe. Hoje recorda-se com mágoa do passado de que gostaria fosse completamente esquecido.

Isto não era brincadeira! As FDS tiveram que lutar noite e dia para hoje respirarmos e quando ouvimos o líder a declarar o primeiro período de trégua, em 26 de Dezembro de 2016, percebemos logo que a coisa estava feia”.

A descrição da nossa fonte, coincide com a sequência do anúncio da declaração da trégua na posse do nosso jornal e que foi apresentada pelo comandante das FDS estacionadas em Gorongosa, Wand Wan Bedford.

Segundo ele, quando o líder da Renamo anunciou unilateralmente a trégua naquela data as FDS desactivaram as posições que lhe eram mais próximas de Nanthaca e Mucossa e quando volta a dilatar o período, desta feita, por 60 dias, em 4 de Janeiro, mais duas foram postas fora da acção, em 23 de Abril, nomeadamente, Mapangapanga e Nhangunga.

Nessa altura ainda nós não confiávamos muito, continuamos dispersos pelas zonas que nos pareciam seguras, mesmo tendo em conta que os homens da Renamo estavam a ser sucessivamente afastados para a serra e lhes custava fazer as investidas à estada nacional nr 1” diz o nosso interlocutor.

Isto era fogo-fogo!

António Américo, que igualmente interrompeu a frequência às aulas na 5-classe, em Vundúzi, em 2012, aceitou falar à nossa Reportagem para acrescentar que quando à Renamo fechou-se-lhe o extremo sudoeste da serra, lembrou-se da melhor entrada e saída que tinha para o seu reabastecimento, designadamente Nhariroza e Nhandar, que entretanto já havia sido ocupada desde Maio do ano passado, por um numeroso grupo de militares.

Fechados aqui e lá, já não tinham como se movimentar à procura de comida que arrancavam aos cidadãos civis, em trânsito ou nas suas machambas e residências. Do outro lado da montanha não há nada, é Parque Nacional e as populações estão muito longe, pode-se levar dias para chegar às aldeias” acrescentou.

Eis que, conforme a fonte aparece a novidade de desactivação de Nhariroza e Nhandar, medida anunciada publicamente pelo presidente da República, no dia 25 de Junho deste ano e acatada no dia seguinte.

Em conversa com o nosso repórter, recorrentemente atrasado porque incapaz de aguentar a velocidade da marcha, a pé, entre Mapangapanga e Nhauchenge, a nossa fonte disse acreditar que não fosse à força a Renamo nunca teria anunciado nenhuma trégua.

“ Primeiro foi o facto de não conseguirem atingir a estrada nacional nº 1, porque ao longo da mesma estão posições das FDS, a seguir as tropas foram ocupando todas as posições pelo interior até confiná-las ao cume da serra. É ai onde começamos a ouvir a ideia de trégua” ajuntou.

Disse, por outro lado, que foi em função desta acção que a linguagem do líder mudou, chamando forças armadas aos homens que dizia serem periquitos e considerar seu presidente ou irmão àquele que simplesmente dizia ser miúdo.

Mas Dhlakama não se confia, é preciso que se conclua que está a dizer a verdade ou é uma maneira de procurar uma saída. Ele gosta desta serra, apesar de ser de Chibabava, lá longe” alertou.

A enxada quando não trabalha

normalmente recolhe à casa

Victor Vasco Cinturão, por seu turno e contactado em Mapangapanga, depois de confirmar que as FDS se haviam retirado, mesmo perante algumas pessoas da população que disse estar a sair das actuais posições da Renamo, comparou a arma a uma enxada que na sua opinião só está na machamba quando está para trabalhar.

Agora, porque é que as armas da Renamo ainda estão com ela se é verdade que estamos em Paz? Isso não nos dá segurança que tenha acabado a guerra”.

Cinturão diz que as populações, embora estejam a regressar às suas zonas, mantêm o medo da guerra, que poderá acabar primeiro com a entrega das armas na posse da Renamo, gesto que poderia ser seguido com a retirada do próprio líder, de preferência para a capital do país, onde estão as sedes dos partidos.

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