CONFISSÕES RELIGIOSAS: Páscoa na paz

O Domingo da Páscoa que hoje se assinala para os cristãos deve servir de ocasião sublime para os cidadãos se reencontrarem e promover o diálogo, harmonia social e, sobretudo, resgatar a paz efectiva e duradoira, bem como desencorajar a violência doméstica, como defendem alguns líderes religiosos ouvidos pelo nosso jornal a propósito.

A principal questão colocada pelo nosso semanário tinha como base a avaliação que as nossas fontes fazem dos esforços em curso, empreendidos pelo presidente da República, Filipe Nyusi e líder da Renamo, visando o resgate duma paz efectiva e duradoira.

Para o Arcebispo da Arquidiocese de Maputo, Dom Francisco Chimoio, os contactos entre as duas lideranças constituem um passo gigantesco rumo a construção da paz efectiva, entretanto, adverte que ainda vai levar muito tempo a avaliar pela complexidade das questões em debate na mesa do diálogo.

“O nosso desejo é que as armas se calem para sempre e se negocie nos órgãos estabelecidos constitucionalmente, mas o que é de louvar é a preservação das tréguas nas hostilidades militares anunciadas aquando da passagem do Natal e o fim do ano e depois prorrogadas até aos dias de hoje”,disse.

Para aquele prelado, o que o povo anseia é que a partir das tréguas se chegue a uma paz duradoira e definitiva, “pelo que continuemos a rezar para que os esforços em curso por parte de ambas lideranças tragam resultados positivos no sentido de que a paz seja perene”.

Acrescentou que todos os cidadãos independentemente da sua crença religiosa, filiação partidária, origem étnica são chamados a perseguir valores moralmente aceites na sociedade, isto é, saber conviver na diferença e isso passa necessariamente, por entender que todos pertencemos ao mesmo país.

“Os contactos representam um passo positivo que precisa de ser fortificado e defendido por todos os cidadãos para que a abertura demonstrada pelas duas lideranças não encontre obstáculos. Há que aceitar o outro e dialogar sem preconceitos e admitir sermos tolerantes e pacientes entre nós. O que estou a dizer é que isso não deve resumir-se aos dois líderes mas a toda sociedade que deve colaborar para o resgate da paz”,disse Dom Chimoio.

Para ele, a Páscoa é ocasião para os católicos reconhecerem que Cristo ressuscitado constitui realmente um grande sinal da presença de Deus, razão pela qual todos aqueles que o seguemsão também chamados a ressuscita-lo, o que passapor ter atitudes novas e serem cada vez mais empenhados na vivência fraterna no diálogo e na aceitação recíproca.

Instado a pronunciar-se sobre a violência doméstica que nos últimos tempos tem assolado as famílias moçambicanas, Dom Chimoio afirmou que a solução passa por um diálogo permanente entre os casais que devem ser tolerantes no sentido de descobrirem que há valores e dignidade a respeitar entre os parceiros.

“Quando um casal é violento, alguma coisa está a faltar, pelo que é preciso que a sociedade cultive valores, como por exemplo, o amor, paciência e sobretudo, ter a calma necessária. Na vida não podemos pretender que aquilo que fazemos seja melhor, há que aceitar as ideias do outro, pelo que os casais devem descobrir no dia-a-dia os dons que existem num assim como doutro lado, quer dizer, haver interdependência”,disse Dom Francisco Chimoio para quem ambos devem se completar mutuamente.

INFORMAR AS PESSOAS SOBRE

O ESTÁGIO DO DIÁLOGO

Dom Carlos Matsinhe, Bispo da Diocese dos Libombos afirmou que expectativa é a de que se alcance a paz o mais breve possível no sentido de trazer o sossego aos moçambicanos que vezes sem conta vivem na incerteza.

“A nossa esperança é a de que o mais breve possível se chegue a um acordo, uma vez que agora estamos apreensivos por não saber a quantas é que vão as negociações em curso entre as equipas que representam os dois lados. Não se pode manter o povo numa apreensão e suspensão por muito tempo, pelo que há que chegar a um entendimento o mais rápido possível nos assuntos divergentes e que impedem o selar do acordo para a paz efectiva e definitiva”,disse.

O desejo daquele líder religioso é que se vá anunciandoo estágio em que se encontram as negociações com vista a amainar o suspense que parece estar a tomar conta dos cidadãos.

Não se pretende uma paz temporária, segundo o entrevistado, como parece estar a acontecer, para quem gostaria que houvesse um sinal de que os assuntos na mesa estão a ser resolvidos.

Sublinhou que não se trata de não reconhecer a competência das pessoas à frente do processo, mas um direito de informar a nação sobre o rumo dos acontecimentos na mesa do diálogo

Perguntamos se o recorrente anúncio de como vão as negociações não seria um retrocesso ou se não criaria confusão nos cidadãos, como parece ter acontecido em determinada altura de outras rondas negociais, o nosso interlocutor mostrou-se céptico, mas ressalvou que seria de bom que se fosse anunciando o estágio em que está o diálogo.

“O povo sabe que se está sobre a questão da descentralização e assuntos militares, mas não tem ideia dos avanços ou retrocessos que podem estar a ocorrer. Se eles entendem que ainda não é tempo de tornar os resultados, então que concluam o processo o mais rápido possível porque os moçambicanos não podem viver num ambiente de suspensão”,disse.

No concernente à violência doméstica, Dom Matsinhe disse que há que repudiar qualquer tipo de violência, seja do homem contra a mulher e vice-versa. “Quando falamos da paz não deve ser só a nível político e militar, mas também na família que é a célula base da sociedade”.

No seu entender, o levantamento que algumas mulheres fazemdeve ser o exacerbar dos seus ânimos das mulheres.

“Julgo que deve ser uma coragem das mulheres de querer manifestar que também podem ser tão cruéis como têm sido alguns homens, entretanto, não deve ser assim porque a mulher é a mãe da nação que deve pautar pelos caminhos mais correctos que passam necessariamente, pelo amor, tolerância, perdão e paciência ininterruptas”.

DIALOGAR COM INTERESSES COLECTIVOS

A bispa da Igreja Metodista Unida de Moçambique, Joaquina Nhanala, parabeniza as duas lideranças que tomaram a iniciativa de dialogar ainda que seja telefonicamente, “pois, em pouco tempo, obtiveram-se resultados positivos que culminaram nas tréguas nas hostilidades militares”.

Segundo afirmou, a ausência da paz afectou negativamente a sua congregação religiosa que ano passado não conseguiu realizar a conferência eclesiástica do Norte do país, o que influenciou negativamente os planos traçados.

De  acordo com aquela dirigente religiosa, todas as pessoas que pretendem viver na paz deveriam esquecer-se dos interesses particulares.

“Se isso não acontecer não chegaremos à paz definitiva. Os dois grupos de trabalho devem olhar para o país, isto é, para o povo e não para os objectivos particulares, quer dizer, dar maior atenção aos moçambicanos que sofrem devido à guerra”.

Joaquina Nhanala acrescentou ainda que é preciso pensar no que é melhor para o povo, independentemente do que determinado partido fez, ou tenciona fazer, isto é, esquecer o passado e partir para a nova vida, o que passa pelo perdão, assim como fez Jesus mesmo crucificado.

Relativamente à questão da violência doméstica, Nhanala observou que o fenómeno não é novo, mas o que mudou são os seus “modus-operandi” o que requer uma reflexão profunda sobre o papel dos tios, tias e as próprias mães sobre a educação dos filhos, sobretudo, aqueles que pretendem contrair o matrimónio.

“Há que olhar para as idades que estão envolvidas nesse tipo de violência e só isso nos remete a uma reflexão profunda, uma vez que no passado havia confrontações nos lares, mas nunca nestes moldes em que a mulher aquece óleo para derramar no seu marido. As atitudes negativas dessas mulheres devem ser resultado de muitas mágoas, pelo que há que perguntar como é que esses casais se juntaram para constituir o seu lar para em seguida se queimarem uns aos outros”,disse.

A entrevistada questiona as palavras que a sociedade usa para resolver o problema envolvendo os jovens, sendo.

“Quando a minha filha vier queixar que o marido lhe agrediu, o que lhe digo? Volte ao seu esposo porque no lar e na família é assim mesmo. e quando de novo  com o mesmo problema, o que é que digo? Onde está o papel dos tios e das tias para com este jovem que espanca a sua parceira?”

Para terminar, a nossa interlocutora disse ainda que este fenómeno chama à atenção para a necessidade da mudança de estratégias de aconselhamento aos jovens que pretendem se casar.

O MAU EXEMPLO DE QUELIMANE

Felicidade Xerindza da Igreja Presbiteriana de Moçambique (IPM) diz que há necessidade de haver uma educação profunda sobre os valores da cidadania para que os moçambicanos percebam a pertinência de todos desenvolver as actividades  políticas livremente e sem intimidações.

No seu entender, as organizações da sociedade civil devem educar as comunidades na base para perceberem que quando se anuncia o fim da guerra é preciso tirar todas as mágoas das cabeças das pessoas e ensinar-lhes a se perdoarem mutuamente.

“As pessoas devem ser ensinadas a interpretar bem os discursos das suas lideranças, porque há uma tendência de esvaziar tudo que é defendido pelas lideranças políticas e atiçar o ódio, em vez de resolver os problemas”,disse.

Segundo referiu, se a paz ou o entendimento acontecer a nível das duas lideranças em nada valerá admitindo a hipótese de se voltar a ter mais problemas.

“É necessário um trabalho de fundo para que as comunidades realmente se reconciliem mutuamente, porque ainda há muitas feridas nos corações das pessoas e para perceber isso basta escutar as entrevistas que têm sido divulgadas nos órgãos de informação”.

Segundo afirmou, um dos exemplos negativos da falta de comunicação com as bases por parte das lideranças políticas são as recentes desavenças havidas na cidade de Quelimane, em pleno dia 7 de Abril, quando as mulheres celebravam o seu dia e de repente houve desentendimentos e espancamento.

“Tem que haver um trabalho exaustivo de educação das comunidades no sentido de saber ser e estar na arena política. Os distúrbios de Quelimane mostraram que ainda não está a acontecer nada no sentido de as pessoas perceberem que são do mesmo país e podem fazer política à vontade no espírito do respeito da lei”, disse

Relativamente à violência doméstica a nossa fonte explicou que há que olhar para a mulher como a pessoa que traz o equilíbrio na família e sociedade, razão pela qual deve ser mensageira de paz e saber trazer os filhos e o marido à mesma mesa. Felicidade Xerindza disse ainda que se a mulher cria confusão há que sentar e procurar perceber as suas motivações.

“Não sei se essas mulheres que estão a cometer esses crimes alguma vez foram escutadas e se foi o caso será que as pessoas que lhes ouviram ofereceram garantias e segurança para elas abrirem os seus corações e dizer realmente o que está por de trás desses actos macabros por elas praticados? Temos que estudar esses casos e desencorajar, pois, a mulher moçambicana sempre foi carinhosa”. 

Para ela, a última palavra de Jesus na cruz na Sexta-feira Santa foi perdão a todos os que lhe estavam a fazer mal, exemplo este que deve ser seguido nos dias de hoje no sentido de promover harmonia social.

“Não podemos ter a mensagem da Páscoa distanciada do perdão entre os cidadãos, porque quem perdoa e é perdoado tem quedar passos significativos para a sua transformação e reconciliação, ou seja, temos que nos perdoar uns aos outros seguindo Jesus na cruz que mesmo crucificado conseguiu perdoar os seus detractores”,disse.

Texto de Domingos Nhaúle

nhaule2009@gmail.com

Editorial

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domingo, 27 agosto 2017, 00:00
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