Um tigre não tem que proclamar sua ferocidade- provérbio africano

David Abílio perorou, nas Oficinas de Filosofia, sobre o Contributo da Dança para uma Cultura de Paz e Desenvolvimento. E fê-lo com propriedade. Eu disse para os meus botões: melhor do que ele, para falar desse tema, a Faculdade de Filosofia não encontraria… e antes que os vigilantes dos bons costumes e conhecedores dos segredos do universo digam alguma coisa, acrescento que essa é a minha opinião e ponto paragrafo.

A sabedoria popular conclama. “o mais importante na vida não é o ponto de partida nem chegada mas sim a caminhada”. David Abílio fez e muito bem esse caminho. Hoje, afastado das luzes da ribalta, continua a ser uma pedra angular quando o assunto é cultura; quando o tema é dança, teatro ou música.

Conheço-o há décadas. A sua vida está intimamente ligada às artes e cultura. Fez e continua a fazer muitas coisas mas, justiça seja feita, foi ao serviço da Companhia Nacional de Canto e Dança - onde foi director artístico e depois director-geral - que alcançou o reconhecimento nacional e internacionalmente.

Formado em Dramaturgia, David Abílio mudou os paradigmas da dança na nossa terra. Não mudou apenas os tons, mas também os trajes, posturas corporais, cores, arranjos e formas. Aproximou-nos um pouco mais dos chamados sentidos da estética africana, quebrando algumas formas ortodoxas de se ver e fazer a dança.

Mexeu com os sentidos estéticos da dança, mormente a memória épica, a polirritmia, a repetição, a qualidade de conversação, o policentrismo, o sentido curvilíneo, a dimensionalidade e o sentido holístico como quem baralha e volta a dar. No coreógrafo a memória épica tem em si uma grandeza metafísica; o sentido holístico, que é o efeito de todo o conjunto da dança. Sons, cores, movimentos: tudo consumido ao mesmo tempo como um todo, formando uma unidade artística. Formando um corpo com vontade própria.

Olhe-se atentamente, a título de exemplo, para peças como “Em Moçambique o Sol Nasceu” ou “Ntsay” para se perceber como ele “reiventou” a dança desde a sua parte micro - o gesto/movimento - para o conjunto que perfaz a própria dança. Há ali magia pura.

No coreógrafo a memória épica tem em si uma grandeza metafísica; o sentido holístico, que é o efeito de todo o conjunto da dança. Sons, cores, movimentos.Tudo consumido ao mesmo tempo como um todo, formando uma unidade artística. Formando um corpo com vontade própria.

Não seria nenhum exagero dizer que há danças que, nas suas mãos, ganharam contornos novos, meramente inspirados nas formas mais radicais da sua execução. Dito por outras palavras, quem vê os grupos que na actualidade executam danças tradicionais pode assumir que na sua forma original são executadas daquela forma; puro logro. Os grupos inspiram-se no que a CNCD faz sem atentarem que elas - as danças - já foram modificadas com um propósito específico que é servir como partes integrantes de uma coreografia.

Ntsay”, bailado que existe há uns 34 anos, continua a ser uma referência incontornável quando o assunto é dança no mundo. De África, foi o primeiro bailado exibido na utópica Kennedy Centre (Washington, EUA), só para citar um exemplo. Aportou em todos os continentes. No nosso país foi exibido em todas as províncias e em perto de uma centena de distritos. É obra. Ntsay tem outra peculiaridade. Foi exibida em público em 1986 mas devia ter sido estreada na festa dos 10 anos de Independência Nacional(1985). Na altura “alguém” entendeu que não tinha qualidade bastante para o efeito. Erro crasso. A história fez-lhe justiça.

Recentemente, na senda do Dia Internacional da Dança, David Abílio foi homenageadopelos artistas. É bom. “Ofereçam-me flores enquanto posso sentir o seu perfume”, dizia o meu avô. É assim que deve ser. Esta é a minha singela homenagem ao homem e ao artista. O senhor é do tamanho da história. Do nosso canto e dança. Das nossas artes cénicas.

Não encontro melhor forma de terminar a crónica senão buscando um ditado burundês: “não se pode esconder a fumaça se se acendeu uma fogueira. DavidAbílio, você é essa fumaça que não pode ser escondida!

Por Belmiro Adamugy

 

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