Já fui portador diário, quando em 1979, na qualidade de chefe da informação, entre os alunos da Escola Secundária de Iapala, em Ribáué, tinha a tarefa de diariamente, menos aos domingos, ir à estação dos Caminhos-de-Ferro levantar o correio. Eram jornais, revistas e quejandos, trazidos pelo comboio.

 

São 7 quilómetros de distância, entre a estação ferroviária e a escola que tem um centro internato, o equivalente a dizer 14, diariamente (minto: por meio-dia, porque estudava sempre no turno da tarde). Era um trabalho do qual dependia muita gente, desde a direcção da escola, os professores e colegas que esperavam pelo resultado das minhas viagens de ida e volta para saberem se estavam entre os bafejados com a recepção dalgum correio.

Havia quem recebia cartas registadas, que traziam, por exemplo, ordens de pagamento, que deviam ser atendidas na vila de Ribáué, para o que deveriam fazer mais 30 quilómetros (quer dizer 60) para receberem algum tipo de encomenda (incluindo dinheiro) enviado pelos seus familiares e amigos.

Na altura os correios eram de tamanha eficiência que uma carta normal depositada em Ribáué poder-se-ia receber em Iapala três dias depois, após ter cumprido o trajecto Ribáué-Nampula, 126 quilómetros, via terrestre, de autocarro e Nampula-Iapala, cerca de 140 quilómetros, em linha recta, de comboio e, finalmente, Iapala-Centro educacional, 7 quilómetros, utilizando-me como portador diário, ou mais tarde os colegas que depois vieram ocupar o lugar por mim deixado.

São os mesmos três dias, curiosamente, que se levam, hoje, passados 39 anos, de Pemba para Maputo, ao arrepio de toda a evolução tecnológica, dos meios de transporte e de comunicação. E mais: sob a chancela de um sugestivo nome: PORTADOR DIÁRIO!

O portador diário veio como alternativa a muitos nomes por que passou a necessidade de diariamente transportar o correio, depois que, como empresa, os Correios de Moçambique começaram a claudicar, sob muitas justificações.

Hoje o PORTADOR DIÁRIO não o é. Nalguns casos porta mas não entrega diariamente, ainda que se tenha em conta as profundas feridas no corpo da nossa companhia área (LAM). Esta pode fazer chegar, mas há uma burocracia que se vai cimentando à volta do serviço que no início conseguiu enganar-nos como alternativa. Depois que nos teve como garantidos ei-lo a fazer (algumas vezes) e não fazer (outras vezes) o que se tinha comprometido –já não é DIÁRIO, ainda que continue PORTADOR.

Mesmo na capital do país, onde se supõe fosse o seu domicílio, não temos a certeza desse serviço. Que o diga a encomenda 746133, com 1990 Kg, despachada em Pemba, no dia 29 de Junho de 2018, com Referência RP180629MB17. Foi levantada no dia 2 de Julho, porque, curiosamente, o ponto de chegada, átrio da EMOSE, no sábado anterior até às 11.00 horas tinha o guiché fechado e nas tardes não se abre.

É dizer, aos sábados não é diário, mas sim, meio-diário. No domingo não abre, provavelmente porque não é dia. É dia sagrado: para casamentos, namoros, xitiques e alguma (quem sabe?) orgia. Não há necessidade de receber nem enviar correio! Correio sendo comunicação, imagino um dia sem noticiário, sem jornal, sem meio de transporte, sem telefone…

Se vais para os pontos situados no aeroporto de Mavalane encontras outra complicação: neste balcão só aceitamos o envio das encomendas; para a recepção só no Terminal Internacional; se a encomenda estava destinada à baixa, só na segunda-feira. Por aí, dois dias se foram, dinheiro foi-se e a impaciência toma lugar que esteve ocupado pelas lindas palavras: PORTADOR DIÁRIO.

Por Pedro Nacuo
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