O facto indesmentível de Aurora ter nascido sem o órgão sexual não tirou um pingo de amor ao noctívago que a abraçava sem parar, ao mesmo tempo que a encharcava de lágrimas de emoção.

 

Para ele o conceito de amor, inicialmente espevitado pela paixão à primeira vista, mudara para sempre numa sublimação trágica, transitando, sofregamente, para sentimento dominado principalmente pelo altruísmo, pela vontade de ajudar. Ligou, de imediato, à médica-chefe provincial, sua conhecida, apelando à urgência do caso.

– O que tem a rapariga?, perguntou a médica.

– Ela tem 18 anos e nasceu sem órgão sexual, respondeu o noctívago.

A médica, bastante solícita, interrompeu os seus afazeres, recebendo de imediato a rapariga e o noctívago. Foi incapaz de conter a emoção quando, finalmente, percebeu que estava perante um caso sério e que requeria atenção imediata.

– Com quem vives?, perguntou a médica.

  • Vivo com os meus avôs. Os meus pais morreram, ripostou Aurora.

A médica explicou que a menina teve má-formação congénita e o seu órgão sexual podia ser reconfigurado mediante cirurgia. Convidou Aurora a comparecer no gabinete médico dia seguinte, acompanhada pelos parentes, a fim de se dar prosseguimento às demarches para a sua transferência ao Hospital Provincial de Nampula ou mesmo ao Hospital Central de Maputo. Os custos de tratamento médico e cirúrgico teriam cobertura do Estado, o mesmo sucedendo relativamente ao custo de transporte aéreo.

Aurora parecia uma menina satisfeita. Despediu-se do noctívago e da médica com novo brilho nos olhos e com um sorriso contagiante. Prometeu comparecer no dia seguinte conforme o combinado.

Ainda houve um momento a sós entre o noctívago e a médica, que questionou: “Como é que descobriste que a rapariga não tinha órgão sexual?”.

A pergunta ficou sem resposta e vieram as gargalhadas de costume. No mesmo dia, o noctívago regressou à sua origem, mas com a certeza de retornar a Quelimane. Partiu cheio de certezas de que o destino de Aurora seria outro.

Duas semanas mais tarde, recebeu um envelope lacrado proveniente da Direcção Provincial da Saúde da Zambézia que dizia: “Lamentamos informar que a menina Aurora não colaborou connosco para seguimento do processo de cirurgia. Médicos, enfermeiros e técnicos auxiliares de Saúde fizeram busca na cidade de Quelimane e não encontraram a menina. A última informação que recebemos, confirmada pela família, é muito forte ao mesmo tempo triste. A sua amiga faleceu. Até agora é desconhecida a razão da morte”.

Foi como se um camião enorme, cheio de carga explosiva, tivesse atropelado o coração do noctívago. Destruiu-o por completo e um vazio enorme preencheu a sua vida. As suas lágrimas formaram um enorme lago, um lago triste, no qual só corre água amarga.

Cinco anos já passaram desde que a mulher misteriosa faleceu e o noctívago teima em viver nas brasas de uma paixão que lhe modificou o conceito de amor.   

Por Bento Venâncio
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