A cidade da Beira, capital de Sofala, sofre de uma mazela hereditária grave. Foi estabelecida junto à foz do rio Púngue, numa planície pantanosa que a torna vulnerável à erosão costeira. Pelo meio passa o rio Chiveve e uma rede de valas de drenagem que já funcionam como veias entupidas devido a este e a muitos outros factores.

O Conselho Municipal diz que anda à cata de algo como 700 milhões de dólares para resolver estes problemas, mas, enquanto isso, a Beira é carcomida na costa, entupida por dentro, com vegetação nas valas e construções nas bacias naturais de retenção de água.

A cidade da Beira é também conhecida por Chiveve, por causa do rio que a atravessa e que funciona como uma válvula respiratória. Este rio é cortejado por vários quilómetros de valas de drenagem que escoam as águas residuais, quando a maré baixa, e acolhem a água oceânicas quando o mar fica bravo. Trata-se de um sistema que, a funcionar em pleno, permite a sã convivência entre o mar e a cidade.

Porque as marés vivas são um assunto sério, em redor desta urbe foram erguidos 50 esporões cuja missão é de amortecer o impacto das ondas do mar e, por esta via, minimizar a erosão. Porém, 32 destas infra-estruturas só estão ali “para inglês ver” porque romperam e já não exercem a sua função original. 

Porque as marés vivas são um assunto sério, em redor desta urbe foram erguidos 50 esporões cuja missão é de amortecer o impacto das ondas do mar e, por esta via, minimizar a erosão. Porém, 32 destas infra-estruturas só estão ali “para inglês ver” porque romperam e já não exercem a sua função original. 

De igual modo, a Beira que em finais de 1800 era conhecida como povoação de Aruângua, possui bacias naturais de retenção de água que, como diz o nome, ajudam a acolher os excedentes de água das valas de drenagem nas épocas de maré alta. Uma destas bacias se estende do Estoril até às imediações do Aeroporto.

Entretanto, percorrendo os bairros desta urbe, salta a vista a deficiente, e por vezes inexistente, manutenção das valas de drenagem que culmina com o crescimento livre de vegetação aquática, incluindo caniço, um pouco por todas as valas. Que o digam os residentes de Mascarenhas, Manga, Munhava, Pioneiros, entre outros.

Na nossa recente visita à Beira, percorremos a área urbana e periurbana, e ainda dedicamos longas horas de apreciação ao que se passa nas praias, com particular destaque para a Praia-Nova, que tem cara de velha, devido ao estado degradado em que se encontra, fruto da acção violenta do mar, e também do Homem.

Numa dessas ocasiões, encontramos um grupo de homens de enxadas e pás em punho a encherem enormes sacos com areia da praia. Via-se claramente que aquele trabalho era penoso e simultaneamente inútil, pois em que em outros pontos daquela mesma praia, onde aquela metodologia foi usada, o fracasso ainda era visível. O mar sempre galgou os sacos e fez estragos de forma impiedosa.

Aproximamo-nos cuidadosamente mas, mesmo assim, fomos alvos da fúria verbal daqueles homens que vociferavam que aquele trabalho devia ser realizado pelo “Governo Central”, que aquilo era uma vergonha para o país, entre outros. Alguns tentaram impedir que captássemos imagens mas, íamos com a lição bem estudada, pelo que usamos o velho truque diplomático segundo o qual “se não podes vencer o teu inimigo, junta-te a ele”. Para sairmos dali com a pele intacta, embarcamos na onda deles. Concordamos com tudo o que disseram e, felizmente deu certo.

Enquanto isso, procuramos descortinar quem deveria ser o chefe do grupo e, mais uma vez, a sorte jogou a nosso favor. Aquela colectividade era dirigida por um homem bem maduro, com cabelos grisalhos e tudo, que mantinha a calma e se esforçava em orientar o grupo na colocação dos sacos cheios de areia ao longo da costa carcomida.

Tratava-se de Alberto Machava, um dos secretários do mercado da Praia Nova, a quem convencemos a afastar-se daquele ambiente ruidoso, apresentamo-nos e explicamo-lo os objectivos da nossa visita ao local. “Estamos a tentar enfrentar este problema de erosão que já começou a “engolir” a estrada que separa o mercado da praia”, disse.

Conforme revelou, o esporão e gabiões que o Conselho Municipal construiu há poucos meses eram meros “figurantes” naquele cenário de destruição que se torna avassalador a cada maré viva. Deixamos de ser vendedores do mercado para nos dedicarmos ao combate à erosão. Pior, estamos a investir os nossos magros recursos para adquirir os sacos”, afirmou.

A procura de herbicidas

Albano António, vereador para a área de Construção e Urbanização no município da Beira, entende que os problemas com os quais aquela cidade se depara podem ser solucionados mediante a disponibilidade financeira que até agora existe na forma de promessas e acordos com várias entidades.

Afirma, por exemplo, que o tempo chuvoso condiciona a limpeza das valas de drenagem, cuja execução, até ao momento, é feita por máquinas (pás escavadoras). “Não podemos intervir nesta altura, porque o nível freático é alto e podemos perder as máquinas, como aconteceu há cerca de cinco anos”.

Outra razão que faz com que o Conselho Municipal da Beira recue no uso de equipamento mecânico é o facto de este danificar as encostas das valas durante o progresso da actividade. “É por isso que não estamos muito animados com o recurso às máquinas”. 

Porque a limpeza mecânica se mostra pouco eficaz, Albano diz que tem estado em contacto com algumas empresas que usam químicos (herbicidas) para exterminar as plantas aquáticas que teimam em crescer nas valas de drenagem. Segundo referiu, tais substâncias químicas não vão criar problemas ambientais.

“Estamos a urbanizar

as baixas, sim. E daí?”

Conforme referimos, a Beira enferma de baica altitude em relação ao nível médio das águas do mar. Algumas fontes dizem que esta cidade está a 14 metros acima daquele nível mas, ainda que seja assim, este número é apenas uma média pois, por ali, há áreas que estão muito abaixo dos 14 metros, sobretudo as que agora estão a ser transformadas em zonas de expansão.

Para o Conselho Municipal da Beira, parcelar um antigo campo de cultivo de arroz, ou uma zona que sempre esteve reservada à retenção da água (as tais bacias de retenção) não é problema. Antes pelo contrário. A actual gestão da cidade da Beira entende que “Construir ajuda a desenvolver a cidade. Estamos a urbanizar as baixas, sim”, confirma tranquilamente o vereador da área de Construção e Urbanização.

Note-se que o Conselho Municipal, no lugar de manter as bacias já existentes, está a parcelar a “distribuir” terrenos, ao mesmo tempo que estende a mão a vários doadores para construir aquilo que a natureza deu à Beira de bandeja. Dados em nosso poder, indicam que o Plano Director da cidade está a ser finalizado e, nele, vem contido que são necessários cerca de 700 milhões de dólares para pôr a urbe nos carris.

Dos 700 milhões de dólares pretendidos, Albano António afirma que pelo menos 400 servirão para fazer frente aos problemas causados pelo mar, com maior incidência para a Praia-Nova que se encontra numa situação crítica. “Temos uma draga e estamos a discutir com a EMODRAGA, entre outras empresas, para vermos como podemos resolver o problema”.

Mesmo a propósito da erosão, o vereador afirma que o grande dilema é a fonte de pedra (rachão) para a construção de esporões. Segundo Albano, aquele tipo de pedra é explorado a 130 quilómetros, no distrito de Nhamatanda, o que representa um investimento em transporte. “Por causa disso, só fizemos um, quando temos 32 esporões danificados”.

A nossa Reportagem apurou que a Cooperação Suíça terá disponibilizado cerca de três milhões de dólares para a protecção costeira, mas, o Conselho Municipal da Beira entende que é preciso muito mais dinheiro, pelo que aguarda pela aprovação do Plano Director e pela realização de uma conferência de investidores para “vender” os diferentes projectos, incluindo a ideia de construção de bacias de retenção artificiais.

Jorge Rungo

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Fotos de Jerónimo Muianga

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