Há julgamentos que animam “maningue”

Sentar-se no banco dos réus deve ser a pior coisa pela qual em vida um homem passa, sem estar acometido por alguma enfermidade física ou mental de vulto. Mas, como dizia um velho amigo de Bula-bula, “esta coisa de estar vivo um dia ainda acaba mal”.

Para alguns a coisa acaba mal por ignorar a máxima que reza que “diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és”. É só espreitar os relatos que nos chegam dos visados pelo processo em julgamento que versa sobre desvios de fundos do exército nacional.

Uns são militares de carreira e outros são simples cidadãos como Bula-bula, que nem sequer conhece a diferença entre o tal “pingo de chuva” e o “camuflado”. Pior quando o assunto são patentes. Quando se diz que este é alferes e aquele é superior ao tenente. Não se sabe se o coronel vem depois do capitão ou do general.

Nos tempos da outra senhora, o que toda a sociedade sabia é que se deve total respeito aos militares porque se entendia que eles é que davam o seu suor, sangue e lágrimas para manter a soberania da pátria intacta.

Porém, Luís Vaz de Camões enunciou, em seu tempo, que “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” e eis que a malandragem também bate às portas dos quartéis. Entra como se fosse convidada de honra, acomoda-se nas melhores poltronas e faz a ceia.

E por falar em mudança de tempos e vontades, alguns assumem que podem dar o seu suor e lágrimas pela pátria. Noutros tempos, todos sabíamos que “a pátria chama por nós”. Agora parece ser o dinheiro fácil, pai da ostentação, que chama e a gente se entrega apaixonadamente. Nem vê onde pisa e como pisa.

A apreciação do caso ainda decorre em tribunal, mas o que já se ouviu é de arrepiar os tímpanos e lacrimejar. Homens e mulheres que nem sequer sabem de que lado fica a coronha de uma simples AKM ter-se-ão deixado enredar num plano para engordar as listas de militares com vivos e mortos para, desse modo, abocanharem os salários dos fantasmas.

Os contornos ainda estão a ser passados a pente fino pelo jurado, mas a estória começa a fazer jus à tese de outro amigo de Bula-bula que diz repetidas vezes que “um homem nunca devia sair de casa sem medir o seu tamanho”. Isso ajudaria a muitos a andar pelas ruas deste país sem ter de esconder o rosto e sem medo de quem lhes vem bater à porta.

Antes de mudarem os tempos e as vontades, velhos e novos cantavam: “Não vale a pena esconder a cabeça, agarramos o rabo”, e o refrão era um simples: “Não vale a pena”. 

Editorial

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