TURISMO: Exemplo flagrante de superação

A República de Cuba é uma autêntica escola de superação, pois, apesar das terríveis limitações económicas que lhe são impostas pelo poderoso vizinho, os Estados Unidos da América (EUA), conseguiu se elevar no panorama internacional como uma potência nos domínios da Saúde, Investigação, Científica, Educação e Turismo. Nestes capítulos ninguém segura o povo cubano.

Eram quase 17.00 horas quando um dos 600 boeings da American Airlines aterrou no Aeroporto Internacional José Martí, em Havana, capital cubana, transportando, entre outros, um grupo de jornalistas moçambicanos, muitos deles de longo palmarés profissional que pisariam o solo pátrio de Fidel Castro pela primeira vez.

O voo foi tranquilo mas, mesmo assim, os outros passageiros trataram de largar uma salva de palmas dirigida à tripulação, num trajecto onde apenas se serve água e um minúsculo pacote de sumo. Tudo o resto paga-se. Talvez porque o céu estava carregadíssimo de temíveis nuvens conhecidas por cúmulo-nimbo, que geralmente dão origem a chuva intensa, trovoadas e relâmpagos, mas que foram contornados com mestria até ao pouso.

Era notória a ansiedade em abandonar o recinto aeroportuário para ir ver Cuba com os próprios olhos e, felizmente, os procedimentos de migração foram rápidos. Em poucos minutos transpusemos a barreira da fiscalização migratória e demo-nos de caras com um contingente de raparigas agentes da polícia de protecção local.

Aquelas polícias chamaram a atenção de todos pelo uniforme pouco comportado. Envergavam saias de palmo e meio, e blusas com os dois primeiros botões abertos e a funcionar como um decote cavo. A maior parte dos passageiros (masculinos), mesmo sem querer, teve a dupla e difícil missão de recolher as malas enquanto “roubava” um olhar de soslaio.

No átrio da área de desembarque havia uma multidão que aguardava pelos respectivos hóspedes. Uns sinalizavam com placas e outros com bandeirolas. Cuba começava a se revelar. Fazia calor e aquela multidão emprestava um abraço de boas-vindas. Era urgente começar a balbuciar algo. “Gracias”, “buenas noches”, “hasta la vista”, e por aí em diante.

A noite fazia-se adulta e seguimos para o hotel num mini-“bus” de uns 20 lugares, mas tínhamos o coração preso naqueles carros velhos de marca Cadillac, Dodge, Chevrolet, Oldsmobile, muitos deles descapotáveis que circunvagam por toda a Cuba. Parecíamos crianças ao ver uma banca repleta de rebuçados.

Aqueles veículos estão por ali desde 1920 e, entre eles, encontram-se alguns de origem russa, da marca LADA e WHAZI, mais motorizadas alemãs que fizeram muito furor por cá no tempo dos jovens regressados da extinta Alemanha Democrática. Era como mergulhar num filme retrospectivo.

Aquelas viaturas resistem ao tempo graças ao génio dos seus proprietários que, cientes de que o mercado já não lhes oferece peças, decidiram produzir as suas próprias, havendo especialistas em torno e fresa um pouco por todo o lado. Só por este cheirinho, sentido à saída do aeroporto, ficou claro que Cuba prometia.

A SOBREVIVER

AO BLOQUEIO

Na manhã seguinte começámos a tomar contacto com a realidade de Havana e um dos primeiros dados que chama a atenção é a longevidade do povo cubano. O país não pode importar ou exportar do, e para, o chamado Primeiro Mundo, mas o seu povo tem uma esperança de vida que se iguala e, em muitos casos, ultrapassa à das grandes potências económicas.

Um cubano comum vive quase 80 anos e isso lembra a esperança de vida dos seus vizinhos e arqui-inimigos, os norte-americanos, e também dos dinamarqueses e costa-riquenhos. O Qatar, Emiratos Árabes Unidos e Arábia Saudita, com o seu petróleo, gás e sumptuosidade ombreiam com Cuba. Nós, moçambicanos, damos graças a Deus quando chegamos aos 50 anos de idade com boa saúde. 

Mais do que permanecer vivo e a sofrer restrições, os cubanos há muito que deixaram de se lamentar e investiram em domínios onde se tornaram tão bons que o mundo se verga a seus pés. Por exemplo, a Educação é gratuita do primário ao nível superior e estudar até à nona classe (9.º Ano) é obrigatório. Resultado, contam-se aos dedos das mãos cidadãos cubanos com mais de 15 anos que não saibam ler e escrever.

Com regras puramente cubanas, salta à vista o facto de não se ver gente jovem a vender recargas na rua. Conforme nos foi revelado, vender recargas é tarefa para idosos, reformados e com limitações de movimentos. “Jovens devem estudar e produzir”.

Mas, para além da esperança de vida e da ausência do analfabetismo, o ministro do Turismo, Manuel Marrero Cruz, faz questão de sublinhar que “aqui não há crime violento, não há sequestros e tráfico de drogas. O que temos de sobra são lugares turísticos e históricos. No total são 257 monumentos nacionais que incluem hotéis e vários locais que são Património Histórico da Humanidade e temos 14 parques nacionais”.

No que se refere ao sector do Turismo, o ministro de tutela, Manuel Marrero Cruz, descreveu de forma exaustiva de onde Cuba vem, onde está, para onde vai e fez perceber que aquele país das Caraíbas entende a matéria e a trata por “tu”.

Tanto é que quase tudo o que compõe a paisagem urbana ou rural tem algo a ver com o turismo. Note-se que até 1990 havia por lá mais de 18 mil estabelecimentos de hotelaria e turismo, sendo que 69 por cento são hotéis de quatro e cinco estrelas. Manuel Cruz afirma mesmo que “há pólos turísticos em qualquer parte do país”.

Num pequeno recuo ao passado, o ministro cubano refere que, “em 1959, aquando do triunfo da Revolução, foi criado o Instituto Nacional da Indústria Hoteleira, entidade que estruturou os primeiros planos de desenvolvimento turístico. Porém, em 1961 os EUA cortaram relações diplomáticas connosco numa altura em que 90 por cento do movimento turístico eram feitos por norte-americanos”, disse.

Enquanto os turistas norte-americanos faziam as malas e se mandavam de Cuba, milhares de cidadãos da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e arredores seguiram no sentido contrário e descobriram o verão escaldante cubano com os seus petiscos, charutos e companhia.

Para azar do povo cubano, na década de 90 cai o Muro de Berlim e os turistas dos países socialistas também desaparecem. Mas, como aquele povo é especialista em reinventar, a decisão que se tomou a seguir foi de estimular o turismo doméstico enquanto jovens locais eram enviados para outras parte do mundo para estudarem como fazer deste sector uma fonte inesgotável de renda.

Para além do quesito renda, aqueles jovens tiveram a missão de perscrutar sobre onde e como adquirir bens de consumo destinados ao turismo que fossem de boa qualidade, mas produzidos longe da mira norte-americana. A Ásia foi a solução encontrada que funciona, e bem, até hoje.

Por outro lado, a República de Cuba conseguiu contornar a questão do marketing do seu potencial turístico driblando as grandes agências internacionais. A tradição oral ajudou em grande medida porque muitos turistas regressavam aos seus países com uma lágrima no canto do olho e a prometerem voltar nas férias seguintes. E voltaram. Depois vieram as Tecnologias de Comunicação e Informação (TIC) fazer o resto. 

Segundo Manuel Marrero Cruz, os sucessivos bloqueios económicos norte-americanos afectam a economia cubana em mais de 25 mil milhões de dólares, uma vez que só é possível explorar 50 por cento do potencial. “Mesmo assim, em 2016 recebemos mais de quatro milhões de turistas e a tendência tem sido crescente desde 1990 quando só tivemos 340 mil visitantes”.

O turismo é tão activo em Cuba que conta com a ajuda de 68 companhias aéreas que, directa ou indirectamente, fazem a ligação com este território insular e o maior emissor de turistas é o Canadá que envia mais de um milhão e trezentos mil excursionistas por ano. “Os canadianos estão a cerca de três horas de voo daqui e quando cá chegam encontram uma diferença de temperatura que pode chegar aos 50 graus. Para eles isso é fantástico”.

O que atrai tanta gente a este país, para além da temperatura agradável, é a personalidade do povo que é bastante vincada no que se refere à cultura, história e hospitalidade, elementos que são temperados com fabulosas paisagens onde se entrelaçam ambientes tradicionais e modernos. Aliás, um passeio pelas ruas deste país permite cruzar com viaturas modernas e antigas, enfim. É tudo muito descontraído.

Mesmo com o embargo económico a vigorar, os EUA aparecem em segundo lugar na emissão de turistas, seguidos da Alemanha. Na verdade, e segundo Manuel Marrero Cruz, 40 por cento dos turistas que escalam Cuba são europeus, o que faz com que a sensação de isolamento económico tenha mais cunho de aparência do que de realidade. 

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