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SAÚDE: Três pessoas com trombose dão entrada no HCM por dia

- Albertino Damasceno, médico cardiologista

Os casos de Acidente Vascular Cerebral (trombose) estão a aumentar no país. O Hospital Central de Maputo, a nossa maior unidade sanitária, regista por dia a entrada de pelo menos três doentes.Este aumento é resultado da alta prevalência da hipertensão arterial que nos últimos dez anos alcançou 40 por cento da população em todo o país.

Albertino Damasceno, chefe do Departamento de Cardiologia do Hospital Central de Maputo (HCM), disse ao domingoque o pior é que o estudo mais recente de abrangência nacional mostra que muitos destes hipertensos circulam como autênticas bombas relógios, porque não conhecem o seu estado de saúde. Nas linhas que se seguem entra em detalhes sobre o assunto.

Que dados temos sobre a prevalência de trombose? 

Infelizmente, é preciso morrer gente importante para nos preocuparmos. A situação é alarmante. Estamos a receber por dia, em média, dois a três casos de AVC. Esta doença tem a ver principalmente com a hipertensão.

Dados disponíveis indicam que, a nível nacional, a prevalência subiu dos 33 por cento, há dez anos, para cerca de 40 por cento em 2017. Aqui o que mais nos preocupa é que 84 por cento dos hipertensos descobertos na pesquisa nunca haviam medido a tensão na sua vida. Ou seja, apenas 16 por cento dos hipertensos sabem da sua situação e assim podem tratar-se.

Qualquer um, mesmo aparentemente saudável, deve medir tensão?

Olha, por não conhecer o seu estado de saúde, muitas dessas pessoas andam com uma bomba relógio pronta a explodir a qualquer momento. Essa explosão é o AVC. Qualquer pessoa deve medir a tensão pelo menos uma vez por ano para saber a sua realidade e cuidar-se. O problema é que a hipertensão é uma doença silenciosa. Não dói. A pessoa que não controla só vai saber no dia que apanhar um AVC...

Sempre conhecida como doença dos velhos, no nosso caso a trombose começa a afectar camadas cada vez mais jovens. O que se passa?

Pelo mundo fora, o AVC continua a ser doença de velhice, mas nos países pobres está a aparecer 10 a 15 anos mais cedo. Isto está relacionado com a falta de diagnóstico e tratamento de hipertensão nos países pobres.

Qual é a probabilidade de recuperação das vítimas de AVC?

Deixe-me começar por dizer que existem dois tipos de trombose. Há o acidente vascular cerebral de tipo isquémico e o hemorrágico. O primeiro ocorre quando uma artéria fica entupida e o sangue deixa de irrigar o cérebro. O segundo ocorre quando uma artéria rebenta e acontece um derrame cerebral. O hemorrágico é mais devastador. Metade dos doentes morre ao longo de um mês após o acidente. No tipo isquémico trinta  por cento das vítimas perdem a vida no fim de um mês, havendo probabilidade de sobreviver, embora com sequelas notáveis em forma de paralisia.

Qual é a capacidade técnica que temos aqui no Hospital Central de Maputo e no resto do país para diagnosticar e recuperar as vítimas de AVC?Para o AVC devo dizer que há pouco para se fazer em Medicina, pois este é o culminar de um problema que poderia ter sido resolvido antes. É verdade que temos o equipamento TAC (Tomografia Axial Computorizada) em todos os hospitais centrais do país (Maputo, Beira e Nampula), o que facilita a identificação da parte danificada e orientar alguma intervenção. Mas no essencial, há pouco por fazer. Depende mais do nível de gravidade das sequelas. O que a medicina trata com eficácia é a hipertensão.

 

Mas muitas pessoas  acham que o tratamento cria dependência…

Isso não é dependência. Se eu quiser tomo, se não quiser não tomo. Porém, é preferível tomar medicamentos para estabilizar a tensão do que se arriscar a apanhar um AVC a qualquer momento. Eu próprio sou hipertenso e tomo medicamentos.

É verdade que esta é doença dos ricos?

O AVC já não é doença dos ricos, porque estes já ganharam consciência, têm meios para se alimentar correctamente, controlarem a hipertensão, vão ao ginásio, etc. Lá, já começa a ser doença dos pobres. Aqui nos países pobres, sim. Está a ser doença dos ricos de cá devido a mudanças radicais de estilo de vida. Nos anos 1930 não havia hipertensão nem AVC em Moçambique. As pessoas alimentavam-se da natureza, com tudo puro. No campo as pessoas andavam longas distâncias, trabalhavam muito, o que lhes ajudava a manter-se saudáveis. As migrações para as cidades trouxeram nessas pessoas novos hábitos alimentares e novos estilos de vida.

Que factores concorrem para o desenvolvimento do AVC?

Como já disse, o factor desencadeador do AVC é a hipertensão. Agora, qual é a causa da hipertensão então? Maus hábitos alimentares, excesso de sal, fritos e falta de exercício. Mais há também outros factores como fumar, ingerir álcool. Quem for diagnosticado com hipertensão deve diminuir tudo isto e fazer tratamento. Portanto, a hipertensão é o principal factor para o desenvolvimento do AVC. Quem já teve uma vez corre sérios riscos de voltar a ter, pelo que se deve cuidar ainda mais.

Existe algum padrão que nos pode ajudar a prognosticar a probabilidade de um indivíduo vir a contrair um AVC?

Se um indivíduo é hipertenso, bebe muito, fuma, come comida com muito sal e nem trata a sua hipertensão, essa pessoa está a candidatar-se para contrair um AVC hemorrágico a qualquer momento. Portanto, respondendo à sua pergunta, sim, existe um padrão. Como já disse, o maior problema é que muitos desses hipertensos não sabem que o são, por isso mesmo não tomam nenhuma medida de precaução e nem fazem tratamento.

O Doutor está a dizer que tensão alta tem cura?

Tensão alta tem medicamento para ficar controlada e manter-se a níveis aceitáveis. O problema é que, como não dói, as pessoas não tratam.

O que o Sistema Nacional da Saúde precisa para lidar com eficiência com este problema?

O nosso sistema de saúde está virado para as doenças contagiosas como malária, HIV/SIDA e tuberculose. Torna-se tedioso para uma pessoa que não sente nada a doer ir aturar uma longa bicha só para medir tensão. Precisamos de unidades de atendimento às doenças não transmissíveis como hipertensão, diabetes e o próprio AVC.

Apontou a necessidade de toda gente diminuir o consumo de sal. Isso é aplicável aos que sofrem de baixa tensão?

Olha, baixa tensão não é doença. Quanto mais baixa tensão, maior será a probabilidade de não apanhar AVC. Os nossos antepassados não consumiam sal. Mesmo você quando era bebé não pediu sal. Só começou a apreciar sal porque a mamã colocou um bocadinho na papinha, na comida e por aí em diante. O sal entra no consumo humano a partir do seu uso como conservante. Até aí o organismo humano nunca se ressentiu da sua falta, pois tudo o que existe na natureza já contém teores aceitáveis.

Hoje ataca velhos, jovens e crianças

–     Sheik Abu Dali

Vivemos numa sociedade ambivalente em que o moderno, o tradicional e o religioso convivem. Para o caso de AVC não é excepção. Há quem prefira e até recomende que em caso de uma queda, antes de tudo, se deve procurar a assistência de um Sheik. Sheik Abu Dali, 95 anos de idade, da Mesquita Shadolia, no bairro da Mafalala, cidade de Maputo, é uma figura incontornável quando se discute trombose e ele aceitou falar ao domingo sobre o problema de AVC.Como figura de referência aqui na Mafalala sobre o tratamento de trombose, qual é a sua leitura da tendência da doença?

 

Trombose está a aumentar. Há muito tempo era apenas doença de velhos. Hoje há velhos, jovens e crianças que são atacados.

Porquê?

Esta doença tem a sua origem no mal que chegou a discutir com Salomão, mas que Muhamad escreveu certas palavras para ajudar as pessoas a recuperar e mesmo impedir que ataque. Mas a palavra que foi escrita nesse tempo dizia que este mal regressaria no fim dos tempos. Estamos nesses fins dos tempos, em que esse mal prometeu vir fazer sofrer muitas pessoas.

É mal antigo que está a provocar trombose hoje?

Há outros factores. O primeiro é a sujidade. Falta de limpeza. Esse bicho do mal de que falei gosta de se esconder nesses contentores de lixo que não é removido, nos sítios onde se faz xixi de qualquer maneira. Em segundo lugar temos o problema da comida que consumimos hoje. É tudo químico. Coisas da machamba andam a encher com químicos. Aquilo já não tem vitaminas. Estamos a comer químicos. Em quarto lugar temos como causa do aumento da trombose o custo de vida, que faz as pessoas pensarem muito porque não conseguem resolver nada. Em quinto lugar, temos o problema de falta de amor. Abunda muito ódio. Cada um quer lançar doenças e maldades para outro. Ninguém tem amigo. A tua mulher é inimiga. O teu marido é inimigo. O teu filho é inimigo.

Na sua qualidade de pai espiritual dos fiéis da sua Mesquita, que solução pode aconselhar?

Não há solução para isto tudo.

O que deve fazer alguém que apanha trombose?

AVC não é assunto de hospital. Basta apanhar injecção, é o fim. O próprio remédio mais eficaz para curar o AVC está em Zanzibar, na Tanzania.

Você tem esse remédio?

Apanhar onde? Não sai de lá. Eles curam rápido com esse óleo especial.

Como é que trata trombose, então?

Nós aqui tratamos com escritae massagem.

Fala-se muito de si…

Em 1988 havia um médico no Hospital Central de Maputo que eu nem conheci que mandava para aqui as pessoas que iam para lá depois de apanharem AVC. Ele dizia logo: aqui não temos cura. Vai ter com o Sheik Abu.

E você sempre conseguiu curar?

Depende do destino de cada um. Muitos saem daqui curados para continuar a andar bem e a fazer tudo o que faziam antes. Mas há aqueles que o destino deles está já marcado e perdem a vida mesmo.

Texto de Francisco Alar

francisco.alar@snoticicas.co.mz

Fotos de Carlos Uqueio

 

 
 
 

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