FABRICO DE CIMENTO: Ministério da Indústria e Comércio procura produtores de clínquer

Moçambique possui importantes jazigos de calcário, gesso e argila que são matérias-primas essenciais para a produção de cimento. Entretanto, o país importa centenas de milhares de toneladas destas substâncias porque, até aqui, ninguém se dispôs a investir na sua extracção e processamento, o que tornaria muito mais competitivo.

Dados em nosso poder indicam que está em curso uma cruzada no território nacional e pelo mundo fora a cata de quem queira extrair e processar calcário, gesso e argila para fornecer estes produtos às empresas produtoras de cimento e ainda procura-se quem queira produzir embalagens para o produto acabado.

Segundo o MIC, se houvesse investimentos neste domínio haveria motivos de sobra para celebrar, uma vez que o país pouparia divisas com a importação daqueles minérios, seriam gerados novos postos de trabalho que se somariam aos 1022 já existentes, entre outros.

É que das 13 fábricas que actualmente estão estabelecidas no país, apenas uma, a unidade da Cimentos de Moçambique, localizada na Matola, na província de Maputo, tem o ciclo de produção integrada desta matéria-prima, com mina própria e uma cadeia completa de produção de cimento.

As restantes 12 fábricas importam geso e clínquer (que é um produto que resulta da queima do calcário), o que, segundo nos foi revelado, contribui para o aumento da pressão cambial para satisfazer as necessidades de aquisição destes bens no Qatar, China, Vietname e Índia.

Destas 12 empresas, seis estão localizadas na província de Maputo, nomeadamente, Sunera Limitada, Cimentos Nacional, Adil Cimentos, Maputo Cement and Steel, S&S Cimentos e Limak Cimentos. Outras seis estão nas províncias de Sofala, Nampula e Cabo Delgado e são a Cimentos de Moçambique (II), Cimentos da Beira e Austral Cimentos de Sofala, ambas de Sofala, Cimentos de Moçambique (III) e Cimentos de Nacala (CINAC), de Nampula, e Cimentos de Cabo Delgado que, como o nome diz, está em Cabo Delagado.

Um dado que salta à vista é que as quantidades de clínquer que é importado para o país tendem a aumentar a cada ano que passa. De 2011 a esta parte, as importações deste produto passaram de 334 mil toneladas para 728 mil toneladas em 2012, subiram para 751 toneladas em 2013, passaram para 804 mil no ano de 2014, cresceram ainda mais em 1015, onde estas compras de clínquer no exterior chegaram a 1.050 toneladas (um milhão e cinquenta mil) e no ano passado (2016) chegou a 1.167 mil toneladas.

O aumento da importação de clínquer, conforme apurámos, resulta do aumento, em dobro, do número de fábricas, fenómeno que concorreu para o aumento da capacidade produtiva efectiva anual que já se situa em cerca de quatro milhões de toneladas, o que representa um incremento de 283 por cento de 2011 a 2017.

Entretanto, e pelos dados que o Ministério dos Recursos Minerais e Energia (MIREM) tem estado a divulgar, Moçambique possui jazigos de calcário em muitas regiões do país, com destaque para Salamanga e Magude, na província de Maputo, no distrito de Nacala, em Nampula, Sanga, na província do Niassa, Macomia, em Cabo Delgado, Inhassoro, em Inhambane, e também em Morrumbala e Namacurra, na província da Zambézia.

O que parece afugentar os potenciais investidores deste sector é que para se obter clínquer a partir do calcário é necessário construir fornos capazes de suportar um mínimo de 1000 (mil) graus e dispor de energia eléctrica para esse fim.

A única unidade fabril que logrou esse feito é a Cimentos de Moçambique (da Matola) que usa o gás natural para manter os seus fornos a produzirem esta substância tranquilamente, o que prova que, com interesse e balanceadas as oportunidades legais e económicas, é possível produzir clínquer no território nacional.

NOVAS FÁBRICAS

Enquanto o MIC procura encontrar investidores nacionais, estrangeiros ou mistos para a exploração das reservas de clínquer, gesso e argila, vai se animando com as perspectivas de entrada em funcionamento de uma nova fábrica de cimento que já se encontra em construção na região de Salamanga, no distrito de Matutuíne, na parte Sul da província de Maputo.

Consta que quando esta empresa começar a operar produzirá até 1.800 mil (um milhão e oitocentos mil) toneladas de cimento por ano, o que significará um aumento de capacidade instalada nacional para um global de perto de sete milhões de toneladas anuais.

Por outro lado, o ministro Ernesto Max Tonela, que dirige o MIC, aponta que estão em tramitação documental outros nove (9) projectos de construção de fábricas de cimento, dos quais oito (8) já foram aprovados pelo Centro de Promoção de Investimentos (CPI) e alguns destes poderão ser o ciclo de produção integrado, tal como o Governo pretende.

Tais projectos, segundo a fonte, estão distribuídos pelas províncias de Maputo, Sofala, Tete, Nampula e Cabo Delgado, cuja construção ainda não iniciou devido a várias razões que incluem a disponibilidade de energia eléctrica, com formação de financiamento, acesso a títulos de uso e aproveitamento de terra (DUATs), entre outros.

A localização dos projectos referidos está associada à existência da matéria-prima principal (calcário), por um lado, a proximidade com os portos, infra-estruturas de estrada e energia e mercados de consumo. “A manifestação de interesse para instalação de mais fábricas prevalece crescente, sendo as províncias de Maputo, Nampula e Cabo Delgado as mais procuradas, mas há um projecto para a província de Tete”, apontam as nossas fontes do MIC.

DILEMAS COM

O CIMENTO IMPORTADO

O mercado do cimento tem sido marcado por um aumento de oferta e de produção em cerca de 130,8 por cento de 2011 a 2016, fruto da entrada em funcionanento de várias fábricas. Entretanto, o país também é confrontado com importações deste produto a níveis que já atingem os 41,5 por cento em relação à produção interna.

Parte destas importações resultou de medidas de âmbito político que foram tomadas pelo Governo visando estabilizar os preços e as carências que se verificavam no mercado.

O cimento como parte da indústria de materiais de construção teve apoio do Governo nos últimos anos através da imposição da sobretaxa nas importações, para que a indústria nacional tivesse oportunidade para crescer, e foi fixada inicialmente em 12,5 por cento em 1997”, disse Max Tonela.

Porém, em 2002 esta taxa foi reduzida para 10,5 por cento e em Dezembro de 2008 o Governo decidiu suspender a aplicação da sobretaxa por um período de dois anos renováveis por um igual período, como forma de minimizar a carência e estabilizar o preço deste produto.

Mesmo assim, o sector dos minerais não metálicos, de que o cimento faz parte, tem vindo a contribuir para o crescimento da indústria nos últimos 5 anos com taxas que variam entre os 6 e 10 por cento, sendo o quarto maior sector atrás de áreas como da indústria alimentar e de bebidas”, acrescentou.

Apesar deste crescimento animador, nos primeiros três meses deste ano registou-se um decrescimento de produção estimado em 8,3 por cento originado pela crise económica e financeira que teve como efeito a depreciação do metical face ao dólar e a consequente redução da procura.

Max Tonela e sua equipa mostram-se satisfeitos com os resultados até aqui alcançados porque “nos últimos anos o sector de cimento está a crescer em termos de produção, contribuição na produção industrial, surgimento de novas fábricas, novos projectos em carteira e crescentes manifestações de interesse no investimento”.

DESAFIOS PREVALECEMDa análise que o MIC faz da indústria cimenteira aponta que sobram alguns desafios com destaque para a necessidade de se resolver o problema do deficiente e variável fornecimento de energia eléctrica às fábricas em operação.

 

Em encontros com os operadores deste sector, as reclamações giram sobre os problemas da oscilação frequente da corrente que compromete a actividade produtiva, impede a instalação e arranque das novas indústrias e faz com que as fábricas não atinjam a capacidade instalada.

A título de exemplo, a nossa Reportagem apurou que dos projectos em carteira, a empresa BiWorld International, que se pretende estabelecer em Muxúnguè, distrito de Chibabava, em Sofala, não avançou porque aguarda pela construção de uma subestação dedicada com 30 Mega Volt-ampere (MVA).

Assim sendo, o investimento de cerca de 60 milhões de dólares que se pretendia aplicar para a produção de cerca de um milhão de toneladas de cimento por ano estão “estacionados” e sem data provável para o arranque.

Como este projecto está a iniciativa da empresa China-Mozambique Cement and Mining, com um valor de investimento que ronda os 100 milhões de dólares.

No caso deste capital misto (chinês e moçambicano), a solução técnica passa pela construção de uma linha de transporte de energia a partir da subestação de Chimuara até a nova subestação de Inhaminga a cerca de 125 quilómetros a um custo de cerca 53,4 milhões de dólares.

Para além destes projectos, que fazem parte de um leque de nove iniciativas, a indústria de cimento enfrenta ainda complicações relativas à limitada disponibilidade de infra-estruturas logísticas, transporte e estradas e ferrovias, e o alto custo de divisas, devido à sua escassez, para o pagamento aos fornecedores das matérias-primas.

As empresas deste ramo também se queixam de dificuldades para assegurar o uso do cimento nacional em grandes projectos de infra-estruturas públicas e privadas, dizem que há concorrência desleal com o cimento importado.

E, mesmo a propósito do cimento importado, queixam-se da deficiente fiscalização que prevalece nesta componente, o que concorre para que circule no mercado cimento sem qualidade.

Mesmo assim, o MIC faz fé no surgimento de novas fábricas integradas na zona Norte e Centro do país que, na sua leitura, vão contribuir para a redução dos preços de cimento. “Mas o que queremos ver é investimento na exploração e agregação de valor ao gesso e clínquer local e termos as pequenas e médias empresas nacionais a crescerem em redor desta indústria através do fornecimento de bens e serviços”, refere.

Para o ministro Max Tonela, “a implementação e massificação do regulamento específico de produção, comercialização e controlo da qualidade de cimento irá de certa forma contribuir para o melhoramento de aspectos ligados ao contrabando, fiscalização, protecção do consumidor, saúde, segurança e ambiente. Ainda servirá de um instrumento de protecção à indústria nacional em relação ao cimento importado”. 

Texto de Jorge Rungo
jrungo@snoticias.co.mz
 

Editorial

Fechar a cadeia de valor da agricultura
domingo, 29 outubro 2017, 00:00
Como manda a praxe, foi lançada, semana passada, a campanha agrária 2017-2018, numa cerimónia havida num dos distritos mais produtivos da província de Maputo – Moamba. A... Leia Mais

Versão-Impressa


Opinião

Desporto

Nacional

Breves

Sociedade

Reportagem

Cultura

Em foco

Temos 527 visitantes em linha

Banca de Jornais

Sociedade do Noticias
  • EconomiaEconomia
  • CulturaCultura
  • DomingoDomingo
  • DesafioDesafio
  • NotíciasNoticias

Conselho de Administração

Bento Baloi Presidente

Rogério Sitoe Administrador

Cezerilo Matuce Administrador