Política

    Desporto

      Nacional

        Sociedade

          Economia

          Cultura

            Mais lidas

            Câmbio

            Moeda Compra Venda
            USD 59,96 61,15
            ZAR 4,17 4,25
            EUR 68,7 70,06

            19.10.201Banco de Moçambique

            Texto de Belmiro Adamugy e Fotos de Carlos Uqueio

            Mulher de trato simples, verbo fácil e frontal – quanto baste – recebeu-nos para dois dedos de conversa. No jardim da sua casa, com galinhas debicando aqui e ali, Paulina Chiziane desenrolou um pouco o cordel das suas batalhas, alegrias e sonhos. Sem falsas modéstias, disse gostar do canto dos pássaros e das coisas simples da vida. Paulina Chiziane na primeira pessoa.

            Paulina Chiziane foi convidada pela SOTER a participar num congresso sobre Religião, Ética e Política a ter lugar na cidade do Belo Horizonte, Brasil. O encontro tem como mote a conjuctura actual brasileira e mundial,  aquestão da democracia, a perda de direitos, a problemática dos direitos humanos, o fundamentalismo presente na sociedade e na religião, a violência, feminicídios e também a questão da religião e da teologia. A mãe de “Niketche” irá fazer uma intervenção e também lançar o livro “Ngoma Yethu”.

            A romancista – título que ela rejeita –nasceu em Manjacaze em 1955. Estudou Linguística na Universidade Eduardo Mondlane. Escreveu os livros “Balada de Amor ao Vento”, “Ventos do Apocalipse”, “O Sétimo Juramento”, “Niketche”, “O Alegre Canto da Perdiz”, “As Andorinhas”, “Na Mão de Deus”, “Por Quem Vibram os Tambores”, “Ngoma Yethu” e“O Canto dos Escravos”. É seguramente a primeira e a mais prolífica entre as mulheres que escrevem no nosso país.

            Paulina já foi listada nas Candidatas ao Prémio Nobel da Paz (2005) em reconhecimento ao seu trabalho de escrita militante, foi também nomeada uma das mil mulheres pacíficas do mundo, ambas iniciativas promovidas pelo Movimento Internacional de Paz; além disso ganhou o prestigiado Prémio José Craveirinha pelo livro “Niketche”. Tem também duas condecorações internacionais. A autora tem livros publicados em Portugal, Espanha, Itália, França, Inglaterra, Estados Unidos da América, Cuba e Brasil.

            SAUDADES DA LIBERDADE

            Quem olha para Paulina não pode deixar de notar que os seus olhos têm uma cor não muito comum entre pessoas de tez mais escura. A que se deve esse fenómeno? Algum antepassado caucasiano?

            Pura genética. Somos negros, bem negros. Que eu saiba.  Pelo menos até a terceira geração. Tenho irmãos assim; minha mãe era assim. Até pensei que fosse alguma doença mas nada disso.

            Nasceu assim?

            Não. Foi a partir dos 25 anos que os olhos começaram a ficar assim. Um  médico disse-me que isto é arco senil; à medida que os olhos vão crescendo e envelhecendo, vão  perdendo a sua cor original... isto é sinal de velhice.Então a velhice veio muito cedo...


             

            Acontece. Há quem comece a ter cabelos brancos aos 25... eu não. O cabelo branco só começou  há pouco tempo.

            Toda a sua vida foi feita em Maputo? Que memórias guarda da sua infância, adolescência?

            Muita coisa boa. Nasci em Manjacazi  mas vim para Maputo ainda nova. Vivi no Chamanculo... em várias casas. Mudávamos de casa com alguma regularidade. Também vivi na Matola. Nessa altura tinha 12 anos. As brincadeiras típicas da idade povoaram a minha infância... uma infância feliz, diga-se.

            Mas há aspectos que se destacam nessa felicidade?

            O sentimento de liberdade.  Liberdade para caminhar até tarde. Brincar à vontade sem medo dessa violência que hoje se vive.  A minha mãe nem ficava preocupada quando soubesse que eu estava com as minhas amigas.

            Acontecia o mesmo quando os amigos eram do sexo masculino?

            Não havia razões para preocupações. Eu já partilhei o quarto com rapazes e não houve problemas. Até aos 17 anos fazia isso. Havia pudor, respeito. Hoje as coisas mudaram muito. Evidentemente que há coisas que não tinhámos na epóca mas o respeito mútuo era evidente.

            A que se refere exactamente?

            Agora há muitas facilidades... meios de transporte, meios de comunicação, escolas de melhor qualidade mas, por outro lado, há esse grande mal que é o álcool. Sempre se bebeu mas não desta maneira.

            Como sociedade, o que podemos fazer para minimizar os estragos que o álcool está a fazer?

            O que eu digo é que cada tempo tem a sua lei e cada geração deve enfrentar os seus desafios.

            SOU CONTADORA

            DE HISTÓRIAS

            Viveu no mítico Chamanculo. A história de “Balada de Amor ao Vento”  não está ambientada no Chamanculo... mas foi lá onde ela brotou?

            O gosto de ler e escrever é anterior a tudo... Quando era mais nova – e até agora tenho esse defeito – acordava sempre tarde. Ficava a ler e a ouvir música. Todos iam dormir mas eu ficava acordada até de madrugada a ler. Às vezes a rabiscar coisas a tal ponto de o meu pai zangar-se comigo porque nas manhãs, na hora de levantar para ir à escola, era um problema sério... Lembro-me que às vezes desligava o quadro para cortar a luz e ver se eu podia dormir mais cedo.

            Solução radical essa...

            Comprei uma lanterna!

            Mas o que é lia mesmo?

            Devorava tudo o que estivesse disponível. Qualquer livro. Li tanto que a dado momento eu dizia para mim mesma que já tinha lido todos os livros em circulação em Maputo. Lia romances, revistas de quadradinhos... lia tudo. Livros científicos, de poesia... tudo, tudo mesmo. E dizia para mim mesma: qualquer dia eu também vou escrever...

            Mas voltando à “Balada”...

            A história de Saranau e Muando nasceu num lugar improvável... eu escrevi-a para homenagear uma zona de uma beleza extraordinária no Rio Save. Sobrevoei a zona aos 26 anos e fiquei literalmente fascinada. Temos no país zonas magníficas. Então implantei ali uma história de amor que foi caminhando até resultar no livro “Balada de Amor ao Vento”.

            Bastou ver uma paisagem linda para gerar aquela extraordinária história de amor?As imagens têm muita influência em mim... por exemplo  “O Alegre Canto da Perdiz”, é um livro recheado de imagens; os montes Namuli estão lá com toda a sua grandeza, com as palmeiras a polvilharem todos os locais tão-somente porque era o ambiente em que eu escrevia.


             

            Mas a sua literatura é muito imagética.

            Sim. Já me disseram isso.

            Já agora, que imagem inspirou-a a escrever  “Niketche”?

            Imagens humanas. Assisti uma cena de rua envolvendo uma mulher de dono contra mulher do outro e com todos os palavrões... e o tal homem, com as mãos nos bolsos, quando percebeu que a situação estava crítica, saiu de fininho do barulho.

            A nossa literatura é eminentemente masculina. Como é que se insere nesse mundo?

            Simples: a vontade de vencer e a vontade de dizer o que me vai na alma. Não foi fácil e até hoje continua a ser uma grande batalha. Há ainda pequenas rixas. Eu tive e ainda tenho de enfrentar barreiras masculinas, barreiras femininas. 

            QUANDO ACREDITO

            VOU EM FRENTE

            Essas barreiras levantaram-se quando começou a questionar o “status quo” dos moçambicanos?

            Penso que sim. Ser moçambicano não é amarrar capulana e comer verdura. É mais do que isso. Eu entre por aí...

            Escrevendo a “Trilogia”?

            O primeiro aspecto que temos de ter em conta para falar desta trilogia (“Na Mão de Deus”, “Porque Vibram os Tambores do Além” e“Ngoma yethu”) é a questão identidade.

            Portanto, a busca da identidade deve versar sobre todas as áreas de conhecimento. A religião, por exemplo, seja ela qual for, porque é a primeira instituição que socializa o ser humano, deve ser analisada. Será que a sua mensagem entra em contraste com aquilo que são os meus princípios identitários?

            Sim?

            Digo isto porque preciso de criticar um pouco os moçambicanos. Basta dizer que há uma igreja, vão. Não se preocupam em saber se o que vão encontrar lá dentro faz bem ou não. Já temos igrejas que falam de feitiçaria... São igrejas ou instituições que vêm nos trazer um pensamento retrógado do qual pretendemos sair.

            Mas será isto que a levou a fazer esta “Trilogia”?

            Não só. A religião é uma área. Podíamos pegar, por exemplo, a medicina; esta é uma área que se julga tecnológica. Que implica muito estudo, e é correcto; para se ser médico é preciso estudar muito mas de onde vem o medicamento? Não provém da natureza? E quem é que tem o domínio da natureza dentro da nossa cultura africana?

            Eu peguei na religião e mexi... mas a identidade está em todas as áreas de conhecimento. Ora, eu sou uma escritora, busco aqui e ali para escrever. Mas chega um momento em que precisamos de aprofundar as questões e dei por mim a produzir esta trilogia: “Na mão de Deus”, o primeiro, que tem a ver com as doenças mentais e como é que elas são tratadas e as diferentes correntes de pensamento, as interpretações sociais que essas doenças têm.

            Depois foram os “Tambores”.

            Depois disso fiquei interessada em saber sobre esse indivíduo, o curandeiro. Eles estão em todo o lado. Não se pode falar da identidade africana, moçambicana, sem falar dessa figura. Então, quis perceber esse universo. De onde vem, o que faz, o que o move. Fiz as minhas buscas e produzi o segundo livro que coloca em dúvida algumas concepções consideradas universais: a concepção do mundo, a concepção de Deus.

            Sempre cavando fundo...

            Não satisfeita com o que havia encontrado, fui à busca daquilo que se considera a fonte do saber, a fonte do divino, referente ao cristianimos, no caso a Bíblia. E a aventura mais bela foi interpretar a Bíblia Sagrada segundo a tradição bantu. Ora, isto chocou muita gente que nunca imaginou que isso podia ser feito. Mas a mim dá alegria poder dizer que afinal a minha cultura está próxima de Jesus e essas fronteiras que dizem que há – quem as pôs e porquê – analisando com alguma profundidade encontramos relações de poder; o poderoso faz com que o outro se sinta menor mas eu sinto que a cultura africana tem muito a dar para o desenvolvimento do mundo.

            O resultado foi esse sucesso editorial...