Jurista ou cantor? ou posso ser as duas coisas...

Vossos filhos não precisam somente ser médicos,

 

engenheiros, advogados, etc. Eles podem ser músicos, poetas, dançarinos  –Mauro Paulo

 

 

A marca principal de um povo é a sua cultura. O modo como se posiciona no concerto das nações, se não tiver marcas naturais do ser e estar, perde todo o seu valor. É engolido e arrisca-se a desaparecer na miríade de países que, cada um a seu tempo, procuram deixar as suas marcas e até influenciar os outros.

Por isso mesmo que é importante transmitir valores (não valores financeiros, apesar de importantes) aos mais novos. Investir no capital cultural é garantir que os próximos serão melhores cidadãos, melhores pessoas. Que saberão respeitar o que irão herdar; que farão de tudo e mais alguma coisa para que a cultura nunca pereça mas antes dê frutos e em abundância.

E parece-me que foi isso que fez o velho trovador Zeburane Tamele. Transmitiu valores aos seus descendentes e estes, como ourives em plena oficina, trataram de transformá-los em pepitas de ouro para os nossos ouvidos e corações. Evidentemente que nem todos os descendentes posicionam-se de igual maneira diante dos estímulos recebidos. No caso da família Tamele, Aniano agigantou-se sobre os demais sem contudo diminuir-lhe valor. Simplesmente aconteceu...

E a prová-lo está o seu disco de originais intitulado – estranha coincidência? – “Tsunela Papai” (aproxima-te, pai, em português), música que é, a um só tempo, uma homenagem aos progenitores (os dele) como aos nossos, sem contudo deixar de ser também um grito de “revolta” contra a maldita ideia (largamente difundida pelo colonialismo cultural) de que os “artistas eram bandalhos”. A ideia, infelizmente, fez escola entre nós...

Mas o disco de Aniano Tamele –recomendável, aliás – tem uma característica que se agiganta sobre os outros temas; o amor. Esse sentimento que desatina a doer sem dor, pontua o disco com uma suavidade absolutamente singular... aliás, o próprio tema – título, “Tsunela papai”, é uma elegia ao amor.  Depois desfilam temas como “Mutchado” (casamento), “Munganame” (meu amigo), “Rosemary”, “N’kosikazi” (esposa), “Sonto” (domingo), “Vulavula n’kata” (fala querida), “Wavuya” (ele vem aí), “Uli ndzi fana naye” (dizes que sou parecido com ele), “Swivulavula” (falatório), “Utisusi Lisima” (perdeste valor).

Em todos eles está subjacente a ideia de amor ao próximo mesmo quando reclama quando a amada diz que o filho é parecido com ele, sendo claro que ele não é o progenitor. “Tenho pena desta criança que crescerá sem conhecer o pai e sem ter o respectivo apelido”; só diz isso quem ama e se preocupa com o próximo.

 Em “Wavuya” celebra o amor mesmo para os descrentes. Em “Sonto” fala do ciúme doentio apesar de “aos fins-de-semana sairmos juntos” e “trabalhar de dia e estudar a noite” e em “Vulavula N’kata” apela para o diálogo como forma de resolução de diferendos. “Munganame” é um apelo ao regresso às origens (casa) e também ao amor pelos mais velhos. Em “Mutchado” convida a parceira a serenar o espírito porque “me apresentei diante dos teus pais e hoje estamos a casar” para além de que “o meu espírito jubila quando te vejo”.

Com a sua voz atípica mas a lembrar um barítono, Aniano Tamele, que por acaso também é jurista, depois de 3 décadas de estrada, decidiu presentear-nos com esse mimo musical que – por assim dizer – era já uma obrigação inegociável.

A verdade é que nem sempre o que as outras pessoas fazem serve de exemplo; temos gente que faz discos “todos os dias” mas uma semana depois ninguém se lembra dos mesmos. A maior parte dos temas que fazem o “Tsunela Papai” mora no imaginário popular há bastante tempo (no lançamento do mesmo centenas de espectadores cantaram todos os temas). Aniano conseguiu preservar os seus valores, atitudes e a sua personalidade. Não se entregou simplesmente ao mundo da música para acompanhar o rebanho. Ele é único!

Afinal Mauro Paulo tem razão: nem todos precisamos de ser engenheiros ou advogados. Podemos ser bailarinos ou actores... ou cantores!

Por Belmiro Adamugy
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