Zeburani!

É muito fácil enfraquecer e destruir.

Os heróis são os que pacificam e constroem– Nelson Mandela

A História é um mito reescrito por cada geração, sentenciou Voltaire. O tempo, por sua vez, sem ser questionado, diz tudo à posteridade. É assim. Por isso mesmo é que algumas pessoas sobrevivem ao tempo. São eternas. Fruto do seu engenho, ultrapassam o plano físico e transformam-se em memórias sempre presentes… até porque, segundo Millor Fernandes, o tempo não existe, só existe o passar do tempo!
 E presente, na memória colectiva, está essa figura singular que, no longínquo ano de 1930, veio ao mundo e os pais deram-lhe o nome de Eusébio Johane Tamele, ou simplesmente Zeburani. Elecresceu num meio familiar próprio de gente de Gaza, onde as actividades principais dividiam-se entre a igreja, escola, caça aos passarinhos, montagem de armadilhas para animais de pequena espécie e pastorícia. Nada que fizesse adivinhar a importância que teria, anos mais tarde, na vida cultural do nosso país… e que importância!

Basta lembrar que Zeburani foi o terceiro moçambicano a gravar um disco (LP) depois de Mutano Gomes Feliciano e Francisco MahecuaneMacuvele. Eusébio Tamele iniciou a sua carreira musical no ano de 1949, na sua terra natal, Chanwane, influenciado pelos seus tios Chikwetani e Ngangai. Em 1950 parte para a África do Sul, onde no ano seguinte começa a fazer registos discográficos. Seria, entretanto, em 1953 que sairia ao público o seu primeiro disco de vinil, em 78 RPM (rotações por minuto) que tocava em gramofones. As primeiras canções gravadas foram “Uteka tikandju tiya Manjacaze” (levas a castanha de caju para Manjacaze) e “Salani Nwana Bava” (adeus irmão), obras que tiveram bastante sucesso.

Há ainda um dado interessante sobre esta ímpar figura; o facto de que alguns hinos da colectânea “Tisimu ta Kutwanana” (Canções de Entendimento) o mais usado na zona Sul de Moçambique pela Igreja do Nazareno tiveram a sua participação aquando da sua composição. São os casos de “Quando enfim chegar o dia”; “Loko Mahelile Massiku Yanga” (Quando o fim dos meus dias chegar) e “Ndzi landzele” (Siga-me).

Portanto, estamos a falar de um homem multifacetado que deu o melhor de si para a sua terra. E não é só de música que estamos a falar. Zeburani é uma figura transversal. Tal como a sua obra. Ele foi combatente na clandestinidade. Também foi encarcerado em 1971 por causa do seu engajamento na luta de libertação nacional. Trabalhou arduamente na construção das aldeias comunais em Xai-Xai, tais como Inhamissa, Marien N’goabi, Fidel Castro, Coca Missava, Zongoene e Chicumbane.

Mas é na música onde de facto se superou e influenciou gerações de artistas que pelas suas próprias palavras se têm referido a isso, como sejam os casos de Alberto Mutcheca, Dilon Djindji, José Mucavel, Wazimbo, Hortêncio Langa, Arão Litsure, Roberto Chitsondzo, entre outros. A sua forma singular de tocar a viola encontra, na actualidade, paralelismo no virtuosismo de Bernardo Domingos.

O teor das suas canções fez dele a imagem educadora da nossa sociedade, isto pela capacidade de enquadrar o dia-a-dia das pessoas de forma subtil e criativa. Escutando atentamente as suas canções, nota-se que, apesar de ter nascido e feito a sua infância em Gaza, uma sociedade patrilinear e marcadamente machista, Eusébio Tamele distanciou-se do que era costume naquela época; apartou-se da coisificação da mulher. Naquela época, as canções mais marcantes são aquelas em que os homens criticavam a mulher ora por ser preguiçosa, adúltera, estéril, gorda ou magra, bonita ou feia e poucos se lembravam dos sentimentos desta mulher, dos seus desejos e aspirações, das suas dores e drama que experimentavam no lar.

Zeburani mostra nas suas obras a urgência de emancipar a mulher. Já na sua época conseguiu apontar tipologias de violência a que a mulher era submetida no lar, sabia-o que ela era igual ao homem em direitos, deveres e dignidade. Não se lhe conhece uma canção sequer em que “destrói” a mulher com críticas comuns daquela época, como por exemplo: preguiçosa, mal cheirosa, estéril, etc. A questão da esterilidade, por exemplo, é trazida nas músicas de Eusébio Tamele como um dos factores usados pelos homens para o total desprezo pelas esposas. Entretanto, Zeburani, ainda que não o dissesse abertamente, deixava evidente a ideia de que a esterilidade não era motivo para sevícias.

Nesta base, o que passamos a ouvir de Zeburani é a ilustração do que ele via na sociedade, através das suas músicas, ele deixou um arquivo histórico sonoro imensurável; legou ao cancioneiro moçambicano um estilo único, um paradigma na análise da sociedade em que estava inserido; ele reforçou-se como homem e negou-se a práticas como poligamia, seguindo à risca o seu comprometimento em ver na mulher uma parceira com os mesmos direitos.

Da sua vasta verve criativa, podemos buscar, a título de exemplo, canções como “Ndzi Biwa Kangaki” (quantas vezes por dia sou agredida pelo meu marido), “Tlhavela N’hlanga” (tatuar), “Ndzi yingisela noti” (oiço um assobio à noite), “Uxongui Ingaku capulana” (és linda como uma capulana), “Dilikazi” (esposa), “Bava anga psalanga” (meu pai não teve filhos, só fez bandidos), “Txatxatxa” (sofrimento), “Hlayisani vasati va nwina” (cuidem das vossas mulheres), que mostram claramente o grande compositor e guitarrista que era Zeburani mas, sobretudo, o seu compromisso com a justiça e equilíbrio social.

Participou na criação do então Grupo Polivalente Provincial de Gaza, que congregava os melhores agrupamentos de dança tradicional. São exemplos os grupos de Makwayela do Bairro 18 de Inhamissa, Ngalanga de Nhamponzuene em Xai-Xai, Grupo de Makwayela de Licilo de Bilene-Macia, Grupo Polivalente de Chókwè, entre outros.

Mas a sua contribuição não se esgota aí; na sua própria casa, transmitiu aos descendentes o gosto pelas artes. Os filhos, dos quais se destacam sobremaneira Aniano Tamele e Zefanias Tamele, todos eles sem excepção, abraçaram a música.

Eusébio Tamele é, sem dúvida, um herói cultural. A sua obra, riquíssima, deve ser estudada. Deve ser preservada. Somos, como Nação, obrigados a isso. Zeburani não pertence mais à sua família de sangue. Zeburani pertence ao mundo. Pertence-nos. Temos necessariamente de celebrá-lo, apesar de em Janeiro de 2003 ter iniciado uma viagem que certamente o juntou à orquestra dos querubins e anjos lá no alto.

Zeburani é uma referência incontornável quando o assunto é a música moçambicana; música de qualidade. Música que, passadas umas quantas décadas, continua agradável de se ouvir. Os seus filhos, a seu modo, têm feito um trabalho interessante de preservação do espólio musical do velho Eusébio. Mas é preciso mais… é importante que a memória colectiva preserve este artista. Este e outros como Fanny Mfumo, Alexandre Langa ou Mahecuane.

Amanhã, dia 17 de Abril, se Zeburani estivesse vivo, celebraria o seu 87.º aniversário.

Agora, vou ouvir a famosa “Tsunela Seyo”!

Belmiro Adamugy

belmiro.adamugy@gmail.com
 

Editorial

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domingo, 27 agosto 2017, 00:00
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